Quem é ele?

Posted: 21 de Agosto de 2014 in Uncategorized

Ricardo Gondim

Quem foi o personagem que varou séculos, agora milênios, como referência humana e encarnação do Divino?

O que há de especial com o filho de uma camponesa, noiva de um carpinteiro? Esse homem só saiu da obscuridade aos trinta anos, não deixou uma só linha escrita para a posteridade. Sua mensagem, entretanto, foi tão excelente que ao vivê-la, homens e mulheres escapam da mediocridade.

Quem na verdade foi aquele andarilho judeu que viajou pela Palestina visitando leprosos em sepulcros, acolhendo crianças nas praças e se detendo diante do clamor dos mendigos?

Quem foi o estudioso da Torá que ousou relativizar a letra da lei para perdoar uma mulher acusada de adultério? De onde veio sua coragem de se incompatibilizar com a elite religiosa que dominava o templo? Por que ele não se acovardou diante do rei marionetado pelo império, a quem chamou de raposa?

O que o tornou inspiração de pescadores, a maioria iletrados e pobres? Como ele se notabilizou como o alento dos escravos, a estrela da manhã dos marginalizados e a âncora dos escorraçados? Por que ele se mostrou dócil com os pecadores e implacável com os religiosos?

Quem era ele, de verdade?

Tais perguntas varam o tempo, intrigam os historiadores, confundem os filósofos, perturbam as mentes mais críticas.

No requinte do pensamento de Rousseau, ele deveria ter sido desmascarado como mera idealização do messias esperado pelos judeus. Na acidez do niilismo de Nietzsche, ele merecia jazer na prateleira dos falsos ídolos, que nascem da carência humana de criar muletas. Na pena odiosa dos neo-ateus, ele não passa de um homem perturbado com suas alucinações.

As questões insistem. O que faz com que ele continue amado por milhões? Tema da canção de ninar sussurrada pela mãe quando embala o filho. Argumento que anima o dependente químico a sair do vício. Anseio nos lábios do favelado da Índia, na canção do negro dos Estados Unidos, no grito de liberdade do imigrante fatigado.

Ele é Jesus, o nazareno, o filho do homem, o amigo dos pecadores, a pedra de esquina, o cordeiro.

Na antiguidade, várias religiões contaram lendas e transmitiram mitos sobre a visita de algum Deus. Quando se tomou conhecimento que o Verbo se fazia carne e que Deus nascia entre homens e mulheres, a história não era inédita. Babilônicos, gregos e romanos tinham versões semelhantes.

Jesus, entretanto, contradisse os precedentes históricos por sua pobreza. Ele não veio Titã, herói. Seu nascimento se deu em meio à dúvida e inquietações de seu próprio pai. José, temeroso e incrédulo, precisou que um anjo o ajudasse a aceitar o ineditismo da situação.

Deus chorou numa noite qualquer, que jamais conseguiremos cravar no calendário. Apenas um punhado de pastores notou seu berço numa manjedoura.

Na infância, Jesus foi exilado no Egito. Em algum campo de refugiados, certamente sem água e com um mínimo de comida, o menino sofreu como qualquer um. Depois, passou a maior parte de sua existência no mais absoluto anonimato. Na vida, partilhou o cotidiano penoso de seus conterrâneos. Sem precisar ostentar força, enfrentou as agruras de uma sociedade injusta sem se valer de poderes sobrenaturais. Ele não nasceu sabendo, mas aprendeu no que sofreu.

Deus se fez gente não para se impor, não para se exibir, não para reivindicar nada, não para coagir. Ele participou de nossa humanidade como um igual. Em nosso ambiente, conviveu tanto com nossa dor como com nossa alegria.

Deus abriu mão das epifanias espetaculares. Entre nós, não quis reivindicar uma religião superior, mas construir seu tabernáculo no coração das pessoas. Ele entrou na história para que saibamos: antes de buscarmos a Deus, ele nos busca primeiro.

Ele instruiu seus seguidores a não adorá-lo, apenas imitá-lo. Eles não precisam colocá-lo em um pedestal, mas percebê-lo no rosto de que tem fome, sede, e está nu.

Quando Deus desejou falar conosco, fez-se gente. Jessus é a metáfora divina que se humanizou, a poesia celestial que se vertebrou, o verso deslumbrante que se adensou e a música delicada que se encarnou. Agora podemos tratar Deus como Emanuel – aquele que está conosco.

Soli Deo Gloria

Recentemente, Bráulia Ribeiro, escreveu no seu blog presente no site Ultimato sobre a fala da Marina em relação a uma possível “providência divina” em relação ao acidente aéreo que matou o candidato a presidência pelo PSD, Eduardo Campos, e mais outros 7 integrantes. 

O texto da Braúlia está neste link.

Como discordo do texto dela, e meus pensamentos se alinham mais a resposta do Rui Luis Rodrigues, transcrevo ele abaixo:

Não pretendia comentar, Braulia, até porque cansam-me, confesso, alguns desses bizantinismos teológicos. Mas, como meus comentários no Tuíter foram parte da origem de seu post, e como algumas expressões que usei foram mencionadas por você, devo ao menos colocar algumas observações aqui.

Nunca neguei o direito que Marina Silva certamente tem, de expressar como quiser suas convicções religiosas. É direito de todo ser humano e deve ser respeitado integralmente, no limite apenas do respeito às convicções dos outros. Amarrar-se a um cinturão de bombas e explodir junto uma multidão, como expressão de convicção religiosa, obviamente não é nem legítimo nem permissível.

O que questionei não foi a “liberdade” de Marina, mas a oportunidade de sua declaração. Eduardo, no comentário que escreveu ao seu post, captou bem isso. O “ser poupado” suscita imediatamente a outra pergunta: “e os demais, não foram poupados por quê?” Isso é muito doloroso e, em semelhante contexto, indo ao funeral do companheiro de chapa que “não foi poupado”, tem uma dimensão de constrangimento que eu, sinceramente, só imagino que Marina não percebeu por conta do nervosismo e do choque em que ela mesma deveria se encontrar.

A questão não tem nada a ver com “laicismo”. Você se serviu do tema, Braulia, para fazer uma verdadeira salada com temas como “laicismo”, “secularismo”e quejandos. Por trás da sua posição está uma postura que eu temo demais, e que se denuncia pelas duas vezes em que você usa a palavra “cosmovisão”. Conheço bem essa ideologia da “cosmovisão cristã”, estou bem por dentro de suas implicações totalitárias (isso mesmo, totalitárias) e quero distância disso. Mas não vou entrar em polêmica sobre “cosmovisão”.

O fato é que nossa sociedade ocidental, após percursos catastróficos, tornou-se laica. Esse é seu principal diferencial e, se me permite falar como cristão, sua “bênção”. Uma sociedade laica é aquela onde a religião, seja qual for, não determina mais os rumos da vida social. Ela continua, sim, válida para a consciência de seus praticantes, que podem e devem se pautar por ela. Mas, como dizia Hobbes, a consciência religiosa que assume a direção da coisa pública deixa de ser “causa pacis” (causa da paz) para se tornar “causa belli civilis” (causa da guerra civil). Hobbes sabia bem do que falava, assistindo ao teatro da guerra civil inglesa e à pavorosa Guerra dos Trinta Anos, de meados do século XVII, e conhecendo as tragédias das guerras entre protestantes e católicos na França, um século antes.

Mas não basta evocar Hobbes, como estou fazendo, nem Locke, como você preferiu fazer. Esses autores apenas nos ajudam a entender como nossa civilização chegou a essa noção fundamental de sociedade que não é mais gerida pelo princípio religioso, pela simples razão de que o princípio religioso é individual e, no limite, pode indicar qualquer caminho (até mesmo os anti-humanos).

Crer na positividade de uma sociedade laica não é o mesmo que ser anti-religioso. Significa admitir que, num mundo religiosamente plural, precisamos chegar a consensos sobre a vida baseados em outras premissas: os direitos humanos, os males da opressão, a defesa dos mais fracos etc. Debates podem surgir a todo instante, e surgem; mas não podemos mais, na esfera pública, descansar sobre afirmações meramente tiradas de contextos religiosos. Muçulmanos creem que mulheres devem andar cobertas? Que vivam assim, mas que não pretendam obrigar os outros. Alguns cristãos creem que a Bíblia condena a homossexualidade? Que creiam assim, mas que não usem sua crença para discriminar os discordantes, nem para influenciar as votações de leis sobre casamentos de homoafetivos. Sempre haverá os que se consideram cristãos e são homossexuais; sempre haverá os que não são cristãos e não consideram certo serem tutelados pelas leis religiosas de outros.

Para o exame da “teologia da providência” não basta o mero desfiar de textos bíblicos. Nem as soluções fáceis, como sugerir que eu (a referência foi a mim) tirei o “Deus que intervém” da minha Bíblia. Se você se refere ao deus do Francis Schaeffer, provavelmente tirei mesmo (aliás, o próprio filho dele fez isso). Mas não o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Creio num Deus que está totalmente comprometido com a vida, o tempo todo. Isso quer dizer que, em todas as circunstâncias, ele trabalha pela vida e contra a morte. Esse Deus, de quem Jesus fez a mais completa “exegese” possível dentro da história (João 1:18), não poupa uns e entrega outros à morte. Ele não “intervém” aqui e ali; está presente o tempo todo, agindo na realidade, discernível em todas as abordagens e tentativas que visam produzir vida e eliminar o sofrimento.

Mas o mundo possui sua legalidade, título que ele recebeu do Criador. O ser humano possui sua liberdade. E a ação pró-vida de Deus (ou ação “antimal”, como gosta de se expressar o teólogo Andrés Torres Queiruga) precisa dialogar com esses aspectos: a legalidade do mundo, das condições concretas da existência, e a liberdade humana. Por isso nem sempre o agir antimal (ou pró-vida) de Deus triunfa em toda situação.

Em 2009, um membro de nossa comunidade parou o carro em plena Marginal do Tietê para socorrer um motorista com o carro quebrado. Sua noiva estava com ele. Esse rapaz dava aulas às crianças de nossa comunidade; era um cristão fiel, meigo, sensível, humaníssimo. Enquanto ele ajudava o motorista com problemas, um caminhão desgovernado atropelou-o. O moço morreu ali, debaixo das ferragens do caminhão.

Isso foi “vontade de Deus”? Não. Um Deus que tivesse tal vontade não seria Deus, seria um diabo. Foi “permissão” de Deus? Não, porque, havendo poder de evitar, permissão e vontade se equivalem.

Onde estava Deus, então?

Deus estava naquele moço, incentivando-o a viver para os outros; foi isso que o levou a parar o carro e ajudar o motorista, ao invés de simplesmente ir para casa com sua noiva. Mas Deus estava também com o motorista do caminhão, quem sabe sugerindo a ele, duas pontes antes: “Por que você não diminui? Por que você não vai para a pista local, para num posto, toma um café?” Deus talvez tenha estado com o motorista do caminhão um dia antes, dizendo-lhe: “Que tal fazer uma revisão dos freios?”

A tragédia não teve traços da mão de Deus. Estupidez humana, falha mecânica, absurdo de uma cidade desumanizada como São Paulo: tudo isso, sim. Mas Deus, no acidente? Não. A não ser trabalhando para evitá-lo.

Onde estava Deus? Deus estava ali, debaixo das ferragens, junto com aquele rapaz, morrendo ali com ele. Porque esse Deus que nunca nos abandona, não nos deixa sozinhos quando, por alguma razão, seus propósitos em favor da vida não puderam se realizar. Ele nos acompanha.

Como você desconhece minha posição (e de teólogos como Andrés Torres Queiruga) ao sugerir que eu “bani da minha Bíblia o Deus que intervém”! Ao contrário, Braulia, creio num Deus que está presente o tempo todo. Até mesmo quando aparentemente não está. Até mesmo com aqueles que, aparentemente, não foram “poupados”.

Em respeito à fé (e à descrença) dos outros, seria tão bom se refletíssemos mais, teologicamente, sobre isso, ao invés de repetirmos os chavões consagrados!

Com respeito e amor cristão, discordâncias não obstante,

Rui Luis Rodrigues

O bom travesti

Posted: 11 de Maio de 2014 in Rubem Alves

E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira”. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.” Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo…” Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!” O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!” e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram.

Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.” Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. [2]

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”

Rubem Alves

O que vem primeiro?

Posted: 6 de Maio de 2014 in Uncategorized

“Ame o teu próximo.” (Jesus Cristo)

O que vem primeiro: Amar o outro ou tornar-se próximo dele? 
Se tornar próximo do outro.

Então primeiro, devemos entranhar a realidade do outro, conhecer suas alegrias, conhecer suas dores, dividir suas dificuldades, chorar com ele, se alegrar com ele, se aprofundar na história de vida, se revelar a ele, e ele a você.

Desta forma, e só desta forma, poderemos dizer: este é o meu próximo.

Neste momento podermos agir.

Nossa única ação?

Amá-lo.

A fé que merece morrer

Posted: 25 de Novembro de 2013 in Uncategorized

Ricardo Gondim

Sentado na quarta fileira de um auditório superlotado, ouvi um pregador cativar cerca de mil pessoas. A oratória carismática extasiava a sala. Na contramão do frenesi, eu repetia um sonoro não à lógica que sustentava o discurso; dizia para mim mesmo: Já não comungo com os mesmos pressupostos deste senhor. Permaneci calado, obviamente (bastam as controvérsias em que me vi envolvido). Eu me recuso, entretanto, a escamotear dúvidas com cinismo. Escrevo agora para fugir de qualquer inconsequência sobre a fé. Sinto a urgência de reagir ao que ouvi naquele dia. Se não fizer, corro o risco de enrijecer a minha espiritualidade.
Reconheço, algumas intuições minhas sobre teologia ainda estão verdes – mas nem sei se desejo que amadureçam. Contento-me com o pouco sentido que meus pensamentos produzem. Permaneço resoluto em continuar no garimpo da verdade. Descobri um novo veio. Ele pode me fazer abandonar pedras que tomei, outrora, por pepitas de ouro. Que veio foi esse? O que abandonei?
1. Não consigo mais acreditar no Deus lá de cima ou lá de fora. Uma divindade distante, imóvel, e que carece de preces verdadeiras para se mover, não merece minha atenção. A concepção metafísica de um Deus, que na linguagem de Bonhoeffer, funciona ex machina, gera idolatria. Oração, prece ou reza com força de mover o braço de Deus daria onipotência ao fiel – já que ele consegue tirar a divindade de sua apatia. A espiritualidade que restringe a divindade a um provedor celestial, que vive lá em cima ou lá fora, e que pode ser acessado por meio da fé, cria um sistema religioso grosseiro. Eis um dos motivos para Nietzsche denunciar os cristãos. Quem pretende mover Deus em seu benefício não passa de interesseiro, egoísta e covarde. A caricatura de um Deus mágico, supremamente útil quando a vida constrange, não passa de um ídolo. Chegou a hora de acabar com essa divindade-consertadora universal, o Deus dos benefícios territoriais e que, arbitrariamente, distribui seu favor. O ponto nevrálgico, que toca a espiritualidade do século XXI, não é tanto o ateísmo quanto a idolatria.
2. Não consigo mais acreditar que milagres sejam prêmios para o privilégio de poucos. Deus jamais poderia comportar-se como um intervencionista de micro realidades, resolvendo minudências. Como entender um gerenciador cósmico que não desbarata o exército organizado por um ditador? A noção da divindade movida por uma vontade permissiva é cruel. Não faz sentido que ele ajude os seus e faça vista grossa para multinacionais que lucram com remédios que poderiam salvar vidas. O encadeamento da história proposto pela teologia clássica implica na aceitação tácita de uma razão eterna por detrás de tudo. Facínoras como Idi Amin, Pinochet, Stalin e Bush cooperariam com o eterno propósito de Deus. Daí Dostoiévski por na boca de Ivan toda a indignação contra tal divindade. Deus teria que fechar os olhos, seletivamente, para o sofrimento de crianças. Depois de descrever o suplício de uma menina de cinco anos que os pais açoitavam e espezinhavam sem razão e que tinha o corpo coberto de equimoses, Ivan arremata: Toda ciência do mundo não vale as lágrimas das crianças. Não falo do sofrimento dos adultos. Eles comeram o fruto proibido, que o diabo os leve! Mas as crianças!
A grande maioria dos evangélicos latino-americanos acredita que Deus abre portas de emprego, ajuda a resolver causas na justiça, faz casamento, mas não se interessa em acabar com a malária ou com o HIV. Ronaldo Muñoz afirma em seu excelente livro, O Deus dos cristãos (Vozes):
Já não podemos, na hora de raciocinar, entender Deus como o grande relojoeiro do mundo, que no princípio construiu sua máquina e a deixou andar pelos séculos com sua lógica exata e inexorável. Já não podemos, tampouco, nos relacionar com Deus em nossa vida como se ele fosse a alma reitora do mundo; como se fosse o condutor sentado ao volante do cosmos, responsável direto pelos processos e fenômenos do mundo e de cada acidente de nossa vida, como se fosse ele o único que realmente cria e maneja os fios, e todo o resto – inclusive nós – não fosse senão “objeto” seu e instrumento de seus planos.
3. Não consigo mais acreditar que Deus mantém o controle absoluto de tudo o que acontece no universo. Não tolero imaginar uma divindade conspirando, nas sombras, com Aushwitz, Ruanda, Darfur, Iraque e outras hecatombes humanas. Não é concebível que ele, semelhante a um tapeceiro, precise dar nós malditos do lado de cá da história; enquanto, do outro lado, na eternidade, teça o desenho perfeito. Qual o propósito de Deus em permitir que uma bala perdida atinja a cabeça do menino a caminho do treino do futebol? Por que a menina ficaria tetraplégica devido a irresponsabilidade de um motorista bêbado? Se o mal nos agride, ele deve agredir qualquer divindade. Concordo com François Varillon: Em vez de procurar em Deus, a todo custo, a justificação do mal, não será necessário descobrir Deus no próprio centro de nossa contestação e dos nossos esforços por suprimir o mal ou, pelo menos, superá-lo?
4. Não consigo mais acreditar que a função primordial da religião seja acessar o sobrenatural para tornar a vida menos sofrida. O senso comum entre cristãos tenta fazer da religião um meio de controlar o futuro. Para muitos a fé precisa ser preventiva. Eles aceitam como verdade que os verdadeiros adoradores se antecipam aos percalços da vida. Afirmam que os filhos de Deus preveem – e anulam – acidentes, doenças ou quaisquer outros problemas existenciais. Concordo com Paulo Roberto Gomes em sua obra O Deus Im-potente (Loyola): A fé cristã não nega a dor, como o estoicismo; não se resigna, como o masoquismo; não a acolhe no que tem de irremediável. Combate-a e tenta dar-lhe sentido positivo à luz de Cristo. Eu também aceito a fé como aposta. Fé que não foge da lida, encara o drama de viver e incita coragem.
5. Não consigo mais acreditar em determinismo, fatalismo, carma, destino, oráculo, maktube. Depois de ler e reler o Eclesiastes da Bíblia, parei de conceber um cosmos preciso e pontual como relógio de quartzo. Deus criou o mundo com espaço para a contingência. Sem esse espaço, não seria possível a liberdade humana. Não advogo a pura aleatoriedade, todavia. Creio em um meio de caminho entre determinismo e absoluta casualidade. Nesse interstício, reside o arbítrio humano. Entendo liberdade como vocação, nunca como dom: mulheres e homens acolhem o intento do Criador e se empenham para construir, responsavelmente, a história. O porvir não está pronto. A história não foi pre-escrita. Acolher o Deus predestinador não se resume a aceitar o atributo da onipotência. Significa admitir que na vontade soberana não sobra espaço nenhum para a iniciativa criadora e para a autêntica responsabilidade. Um Deus de desígnios imutáveis reduziria tudo e todos a meros instrumentos seus – mais ou menos conscientes. Se ele é o único autor e exclusivo protagonista do drama humano, o solitário condutor da história, homens e mulheres não passam de peões em um vasto tabuleiro de xadrez.
Reconheço, posso assustar, mas não vou recuar. Prefiro tornar-me uma metamorfose ambulante. Melhor não ter uma opinião formada sobre tudo. A constante fluidez de existir exige de mim uma verdade pegajosa, nunca cristalizada como a do pregador que me inquietou – e que nego aqui. Anseio por essa verdade. Ela se dá no caminho. Por isso, prossigo.

Soli deo Gloria

Os pobres e os insetos

Posted: 24 de Outubro de 2013 in Uncategorized

Ricardo Gondim

Por anos, achei esquisito os gringos pensarem que a capital do Brasil é Buenos Aires. Agora entendo. Eles nos tratam com a mesma distância que nós, os brasileiros, conhecemos a África ou o Haiti. Não sabemos quase nada sobre a realidade dos países pobres do mundo. A grande maioria dos brasileiros desconhece os horrores da África. Verdadeiros holocaustos ocorrem no Congo, Darfur e Zimbábue e a grande mídia relata muito pouco sobre os genocídios que a pobreza produz. Quantos podem dizer a capital do Congo?

Tragédias repentinas provocam grande alarde. Tsunamis e furacões solampam a previsibilidade mínima que esperamos da vida. Já as hemorragias lentas, com a morte de milhões, são toleradas. Suportamos a miséria porque os limites do aceitável, na devastação de vidas, são expandidos milímetro a milímetro. A condescendência midiática chega a ser criminosa. Por que não se fazem reportagens especiais sobre a mortandade de Darfur? Qual o motivo do silêncio sobre o comércio ilegal de armas no Congo? Constantes epidemias do cólera dizimam o Haiti. Como há um distanciamento dessa realidade, poucos perdem o sono. Morrem dezenas no Iraque ou no sofrido Zimbábue, mas eles não ganham manchete. Um pequeno incidente nos países ricos causa espanto. Contudo, um mundo consumido pela miséria se torna tão perigosamente frágil quanto o mundo que foi arrasado em Hiroshima, ou que testemunhou Auschwitz.

O sofrimento crônico do pobre parece não oferecer atrativo para as redes de comunicação, ansiosas por índices de audiência. A banalidade impera. Tolices ganham espaço. Notícias menos importantes povoam as aspirações populares: final do campeonato de futebol; excessos consumistas de famosos; excentricidades do playboy que esbanja a fortuna da família. Impera a lógica: Ora, pra quê se importar com os bolsões de miséria?

Em Metamorfose, Franz Kafka narra a história de Gregor Samsa, caixeiro viajante e arrimo da família. Certo dia, ele acordou transformado num inseto asqueroso (alguns leitores de Kafka insistem que era uma barata). A reação da família diante de seus infortúnios reflete bem o comportamento da humanidade ao se ver diante do sofrimento. A princípio eles se preocupam com a condição pavorosa de Gregor Samsa. Mesmo provocando repulsa da irmã, ela o alimenta com cuidado. Importa-se sim com seu bem estar. Mas com o passar do tempo, o sofrimento de Gregor Samsa se prolonga e a vida precisa continuar. Sem o dinheiro que Gregor Samsa provê, a família se sente obrigada a trabalhar. Com as demandas do dia-a-dia, ele vai sendo esquecido. E assim o pobre caixeiro, metamorfoseado em inseto, acaba abandonado num canto do quarto, coberto de poeira.

África, América Latina e Haiti são um Gregor Samsa. O rosto esquálido de crianças, a miséria agressiva dos campos de refugiados e a diarréia mal cheirosa do cólera não são agradáveis para quem assiste ao telejornal antes de jantar. A alienação se alastra. Religiosos agravam o quadro – evangélicos principalmente. Pastores preferem gastar horas com testemunhos de gente que jura ter subido na vida à custa de milagre. Relatos procuram atrair mais gente gananciosa por conhecer uma divindade que suspende todas as leis para beneficiar os seus. Mais e mais igrejas se especializam em satisfazer o consumismo desenfreado. Deus a serviço do materialismo. Cantores gospel enriquecem. Igrejas-empresas se abarrotam de dinheiro – enquanto passam a ideia de que o mundo sofre por recusar converter-se à sua mensagem.

Simultâneo a esse distanciamento, tragédias insistem em se repetir. Gente querida de Deus morre. Agonizam como insetos nojentos. Diz-se de Nero, que sua maldade não foi tocar fogo em Roma, mas tocar violino diante do horror. Deixar-se entorpecer nos processos lentos, que destroem vidas, consegue ser ainda mais cruel do que o mal perpetrado. Mario Quintana afirmou: E o que assinala e caracteriza os servos do Diabo, neste nosso inquieto mundo, não é especificamente a maldade: é a indiferença. Esquecer o pobre como se fossem insetos (baratas?) é demoníaco.

Soli Deo Gloria

Sejamos bons

Posted: 23 de Outubro de 2013 in Uncategorized

Sua história de vida lembrava muito a vida do bom samaritano, personagem de uma das parábolas de Jesus. Ajudava sempre quem precisava pelos caminhos de sua vida.

Semelhante também ao bom samaritano, não era cristão. Nunca confessou Jesus como seu senhor e seu salvador.

Tinha como crença alguns deuses que aprendeu com seus pais.

Apenas viveu cuidando das necessidades de homens abandonados pelo seu povo.

Não mereceria receber o título de cristão já que nunca foi evangélico ou católico.

Segundo algumas crenças destes grupos não poderia ir para o céu já que entraria pelas obras e não pela fé, algo inaceitável.

Aparentemente ele não atendia critérios vitais para escapar da condenação.

Mas mereceria ser chamado de bom por Jesus como foi o samaritano.

Semelhante ao bom samaritano e a este outro bom homem, vivo os meus dias não para ganhar um lugar no céu, mas para que um dia, aquele que pregou o amor, possa dizer que eu fui um bom homem.