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Olhando para a imagem acima, o que está faltando: Um médico ou uma maca nova? Se eu fosse do governo, perguntaria: “Onde está o médico?”. Se eu fosse do CFM (Conselho Federal de Medicina) ou médico, perguntaria: “Onde está o leito novo?”. Mas pensando melhor, dentro do contexto que quero abordar, poderia ver nesta imagem um certo alento de que a medicina estaria funcionando: não há doentes para precisar de mais macas novas e mais médicos.

Antes de continuar lendo o texto responda a seguinte pergunta para você mesmo, independente da minha opinião: A longo prazo, qual a melhor forma para melhorar a saúde da população: uma medicina voltada para tratar as doenças ou uma medicina voltada para evitar o surgimento delas?

Você poderia dizer que não são medidas contrárias tendo que investir em ambas. Mas quero mostrar neste texto que se investisse muito mais em impedir o surgimento de doenças, menor seria a necessidade de investimento no tratamento das mesmas. 

Depois destes últimos meses acompanhando os embates entre o Governo e o CFM em busca de melhorias na saúde pública de nosso país, em resposta aos protestos por todo o país, tenho percebido que ambos estão deixando de discutir o que pode realmente mudar o quadro da saúde da população: EDUCAÇÃO EM SAÚDE e MEDICINA PREVENTIVA.

Educar uma população para a mesmo cuidar de sua própria saúde envolve investir pesado em capacitar profissionais que possam ensinar novos hábitos que envolve uma educação alimentar saudável, que estimule a prática diária de atividades físicas, entre outras medidas. Que acompanhe de perto a população na sua atenção básica (médicos de família, enfermeiros, agentes de saúde etc) e outros profissionais como nutricionistas, professores de educação física, fisiologistas, psicólogos, psicoterapeutas etc.

Investimento maior em obras de saneamento básico, vacinação, combate a parasitoses e a vetores.

Investimento contra a obesidade, o tabagismo e o alcoolismo, como supervisão maior sobre os produtos das industrias alimentícias, e impostos maiores sobre as empresas do ramo do tabaco e do álcool; e também na redução da violência que envolve também a violência no trânsito.

Rastreamento de doenças comuns e tratáveis como o câncer de colo do útero, câncer de mama etc.

Para se ter uma idéia, estas condições – Diabetes, Obesidade, Hipertensão, Tabagismo e Alcoolismo, por exemplo (veja referências abaixo) – que afetam milhões de pessoas em nosso país, que exigem gastos exorbitantes do dinheiro público, e que na sua GRANDE MAIORIA seriam prevenidas com as medidas citadas acima, são as CAUSAS DIRETAS de outras milhares de patologias que alimentam a necessidade de milhares de médicos especialistas para atender esta população e de milhares de macas novas. Milhões de doentes são gerados com doenças ligadas a estas condições simplesmente porque não se educa a população nos cuidados simples que as evitariam. Este mesmo dinheiro poderia então ser destinado a mais melhorias na educação em saúde e prevenção de doenças.

Infelizmente, o Governo não apresentou nenhuma medida mais pesada, de alto investimento, quanto a prevenção de doenças e na educação em saúde da população. Apenas em soluções para o tratamento da população já doente e dos que surgirão nas próximas décadas, devido a falha no investimento preventivo nas últimas décadas.

Assim como o Governo, o CFM também não apresentou nenhuma proposta de melhoria na educação de saúde e prevenção no surgimento de doenças. Pensa em solucionar o problema da saúde apenas melhorando a carreira médica com salários bons e estrutura de ponta. Como se fosse uma regra matemática [Hospitais de 1° Mundo + Equipamentos de ultima geração + Medicamentos para todos + Salários Altos + Médicos Felizes] = População Saudável. 

Mas porque ambos, Governo e CFM estão apegados a apenas tratar as doenças e não prevenir o surgimento delas? Porque este não é o centro do debate?
O que me leva ao pensamento de Paulo Freire: “Os opressores, falsamente generosos, tem necessidade para que a sua “generosidade” continue tendo oportunidade de realizar-se, da permanência da injustiça.”

O governo diz que falta medico do lado do leito do doente. O CFM diz que falta leito para o médico estar ao lado do doente. Mas nenhum dos dois se perguntam: o que trouxe este doente aqui, poderia ter sido evitado? Se respondermos esta pergunta, veremos que a saúde não se constrói com mais médicos ou mais leitos e sim com pessoas conscientes no cuidado de sua saúde. A saúde da população não deve estar na mão do governo, nem do CFM ou dos médicos mas na mão do próprio humano que é o construtor maior de sua própria história. 

“Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém.”(Paulo Freire)

Suênio Trindade Alves

Leituras/Vídeos Recomendados:

1 – Obesidade Infantil – Assista o documentário Muito além do Peso.
“Hoje em dia, um terço das crianças brasileiras está acima do peso. Esta é a primeira geração a apresentar doenças antes restritas aos adultos, como depressão, diabetes e problemas cardiovasculares. Este documentário estuda o caso da obesidade infantil principalmente no território nacional, mas também nos outros países no mundo, entrevistando pais, representantes das escolas, membros do governo e responsáveis pela publicidade de alimentos.”
http://www.youtube.com/watch?v=8UGe5GiHCT4&list=PLb0s6Q0hyCUvNkNUS4PJqY6qtRPZLNow8 

2 – Brasil gasta R$ 21 bi com tratamento de doenças relacionadas ao tabaco (30% do orçamento em saúde) –http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,brasil-gasta-r-21-bi-com-tratamento-de-doencas-relacionadas-ao-tabaco-,880230,0.htm 

3 – “(…) danos causados pelo consumo de bebida alcoólica é estimado na ação em cerca de R$ 2,8 bilhões e foi calculado com base em danos mensuráveis (gastos federais no âmbito do SUS e despesas previdenciárias, em razão de doenças ou lesões diretamente relacionadas com o consumo de álcool)” – http://www.antidrogas.com.br/mostraartigo.php?c=1013&msg=Danos+causados+pelo+%E1lcool+aumenta+gastos+do+SUS+e+despesas+previdenci%E1rias%2C+diz+MPF

4 – “(…) Violência no trânsito – Os acidentes de trânsito provocam grandes custos sociais para as cidades. Para cada vítima em situação grave, valor, em média, é de R$ 200 mil. No caso de mortes, esse cálculo pode chegar a R$ 800 mil.”
http://oglobo.globo.com/rio/violencia-no-transito-com-morte-valor-perdido-chega-r-800-mil-8660726#ixzz2ZJTszFL3 

5 – Diabetes – “Considerada a grande doença do século 21, o diabetes tem um elevado peso nas despesas dos sistemas de saúde, com um número atual de doentes ao redor de 285 milhões, podendo chegar aos 435 milhões em vinte anos se não forem adotadas medidas educativas e preventivas.“
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1376616-5603,00.html

6 – Caderno de Educação Popular e Saúde – http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/caderno_de_educacao_popular_e_saude.pdf

 

Leite condensado, ketchup e cigarro

Posted: 13 de Abril de 2013 in Uncategorized

 

Lucas Lujan 

O leite condensado foi inventado para substituir o leite materno. O ketchup já foi considerado remédio. Nas propagandas de cigarros, médicos eram os modelos que incentivavam seu consumo para uma vida saudável.

 

Nenhuma dessas coisas, contudo, persistiu. Por uma razão simples: temos a capacidade de repensar. Nenhuma fazia mais sentido, foram então reformuladas. As coisas que são não precisam ser para sempre, podem ser refeitas ou simplesmente abandonadas.

 

Nosso primeiros ancestrais eram nômades. Caçavam e exploravam tudo o que podiam com seus pedaços de ossos e pedras. Se comunicavam com pinturas e alguns poucos ruídos estranhos. Daí as necessidades mudaram e eles repensaram. Precisavam de habitação fixa.

 

As circunstâncias os levaram a desenvolver a agricultura e a fazer fogo. Com o fogo avançaram para a metalurgia e logo começaram a armazenar alimentos. As comunidades foram crescendo e agora precisavam fazer trocas com outras comunidades. Daí as necessidades mudaram e eles repensaram. Precisavam se comunicar melhor.

 

As circunstância os levaram a desenvolver palavras e depois inventar a escrita. Surgem grandes aglomerados humanos, ou cidades. Do desenvolvimento do raciocínio complexo passaram a fazer filosofia. Nascem a política e a economia. Daí as necessidades mudaram e elesrepensaram. Precisavam de autonomia.

 

As circunstâncias os levaram à razão. Emancipação do ser humano. Progresso científico e tecnológico. A terra é redonda e não é o centro do universo. Isaac Newton. O Papa não é Deus – que afinal pode nem existir. Daí as necessidades mudaram e eles repensaram. Precisavam abandonar definitivamente o passado e mergulhar na modernidade.

 

As circunstâncias os levaram ao fonógrafo, lâmpada, fibra sintética, turbinas de vapor, indústria, câmera e papel fotográficos, motor diesel, carro, raio x, cinema, telégrafo sem fio, rádio e avião. Albert Einstein. Televisão. Internet e celulares. Internet em celulares.

 

Nada disso aconteceu sem muito conflito. Daí a necessidade de repensar a maneira como nos desenvolvemos e progredimos – que muitas vezes representou um retrocesso de fato. É preciso agora de um novo cimento social, que está sendo chamado de desenvolvimento sustentável. Uma revisão dos padrões de extração, degradação, modo de produção, economia de produtos, consumo e  urbanização.

 

As necessidades vão mudar e precisaremos repensar, sempre. A história está andando, por isso as necessidades mudam e é preciso revisão. As circunstâncias nos levam para caminhos novos, invariavelmente. É preciso ouvir o tempo e a ele dar uma resposta.

 

Difícil, porém, é explicar isso para os evangélicos brasileiros. A história está evidentemente em trânsito, mas eles estacionaram lá no início do século XX e de lá não querem arredar o pé. Afinal, estão sob os cincos ponto dos fundamentos da fé. O que decorre dessa teimosia é um anacronismo, que por sua vez, decorre numa irrelevância – no melhor dos casos -, ou simplesmente em puro deboche por parte dos setores da sociedade.

 

Assisti um vídeo de humor, com personagens fictícios, em que a Dilma Rousseff diz para o Marco Feliciano: “Não quero que peça demissão da comissão de direitos humanos e minorias, quero que peça demissão do século XXI”. Às vezes a crítica séria vem em forma de deboche, mas não perde seu caráter de denúncia flagrante.

 

Medidas as proporções para efeito comparativo, aqueles que se identificam com os valores morais, éticos, sócio-políticos e teológicos do Marco Feliciano ainda dão leite condensado para seus recém-nascidos, usam ketchup para tratar doenças e consomem cigarros para se manterem saudáveis. Se comunicam com ruídos estranhos e caçam com pedaços de ossos e pedras – às vezes literalmente, porque gostam de literalidade.

 

 

 

Elienai Cabral Jr. —- Blog

Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista, ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é.

Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais: lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida e uma abertura despojada e generosa ao outro e sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor, assistir pessoas em cerimônias fúnebres sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. A pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali então um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações sob a leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da que falecera, dispara cruelmente: – ‘Eu disse a ela; se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!’ Sua mãe, um ano antes, pelo mesmo motivo, também falecera. Deixaram as duas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz de mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandando as dores da despedida. Alguém me pede que ceda um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, as palavras que se congelaram em minha mente: – ‘Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima’. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, observou as palavras desajeitadas do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se em prantos ainda mais sofridos sobre o pai, morto. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência incurável do pai, amigo e provedor. Revoltei-me em meu coração.

Estas cenas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas, pelas razões que forem, comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos matarão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa: mistificação da vida, alienação, herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos.

Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar.

Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo.

Veio em carne, insiste o apóstolo.

Religião e alucinação

Posted: 5 de Dezembro de 2012 in Uncategorized

Ricardo GondimImagem

Tenho muita pena dos crédulos. Chego a chorar por mulheres e homens ingênuos; os de semblante triste que lotam as magníficas catedrais, na espera de promessas que nunca se cumprirão. Estou consciente de que não teria sucesso se tentasse alertá-los da armadilha que caíram. A grande maioria inconscientemente repete a lógica sinistra do, “me engana que eu gosto”.

Se pudesse, eu diria a todos que não existe o mundo protegido dos sermões. Só no “País da Alice” é possível viver sem perigo de acidentes, sem possibilidade da frustração, sem contingência e sem risco.

Se pudesse, eu diria que não é verdade que “tudo vai dar certo”. Para muitos (cristãos, inclusive) a vida não “deu certo”. Alguns sucumbiram em campos de concentração, outros nunca saíram da miséria. Mulheres viram seus maridos agonizarem sob tortura. Pais sofreram em cemitérios com a partida prematura dos filhos. Se pudesse, advertiria os simples de que vários filhos de Deus morreram sem nunca ver a promessa se cumprir.

Se pudesse, eu diria que só nos delírios messiânicos dos falsos sacerdotes acontecem milagres aos borbotões. A regularidade da vida requer realismo. Os tetraplégicos vão ter que esperar pelos milagres da medicina – quem sabe, um dia, os experimentos com células tronco consigam regenerar os tecidos nervosos que se partiram. Crianças com Síndrome de Down merecem ser amadas sem a pressão de “terem que ser curadas”. Os amputados não devem esperar que os membros cresçam de volta, mas que a cibernética invente próteses mais eficientes.

Se pudesse, eu diria que só os oportunistas menos escrupulosos prometem riqueza em nome de Deus. Em um país que remunera o capital acima do trabalho, os torneiros mecânicos, os motoristas, os cozinheiros, as enfermeiras, os pedreiros, as professoras, vão ter dificuldade para pagar as despesas básicas da família. Mente quem reduz a religião a um processo mágico que garante ascensão social.

Se pudesse, eu diria que nem tudo tem um propósito. Denunciaria a morte de bebês na Unidade de Terapia Intensiva do hospital público como pecado; portanto, contrária à vontade de Deus. Não permitiria que os teólogos creditassem na conta da Providência o rio que virou esgoto, a floresta incendiada e as favelas que se acumulam na periferia das grandes cidades. Jamais deixaria que se tentasse explicar o acidente automobilístico causado pelo bêbado como uma “vontade permissiva de Deus”.

Se pudesse, eu pediria as pessoas que tentassem viver uma espiritualidade menos alucinatória e mais “pé no chão”. Diria: não adianta querer dourar o mundo com desejos utópicos. Assim como o etíope não muda a cor da pele, não se altera a realidade fechando os olhos e aguardando um paraíso de delícias.

Estou consciente de que não serei ouvido pela grande maioria. Resta-me continuar escrevendo, falando… Pode ser que uns poucos prestem atenção.

Soli Deo Gloria.

O umbigo meu de cada dia me dai hoje.

Imagem  —  Posted: 1 de Dezembro de 2012 in Uncategorized

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Vendo alguns cristãos defenderem a teologia da prosperidade, pergunto:

No livro dos Atos, nos 2 primeiros capítulos, e também em todos os relatos mais antigos da tradição cristã, já que a tradição cristã não é só o que contém no canôn, temos as narrativas de que, entre os seguidores de Cristo, os primeiros, os originais, ninguém tinha nada a mais que ninguém. O que diz os textos é que todos vendiam as suas propriedades e repartiam tudo entre si. Todos tinham “TUDO EM COMUM”. O próprio livro dos Atos é bem claro quanto a isto. A partir dos séculos XVI e XVII, com a reforma protestante e o surgimento do sistema capitalista, Lutero, Calvino e os pais do protestantismo utilizaram-se de uma interpretação teológica que visava favorecer o sistema vigente, ou seja, o capitalismo como citei anteri

ormente. Desde então, temos sido ensinados que todo aquele que “aceita” a Cristo será próspero e ajudará os outros. Ou seja, Deus te dará muito e vc dará uma ajudinha pra quem tem menos, mas possivelmente se perpetuará o fato de que sempre alguém terá menos. Isto nada mais é do que assistencialismo. Nem Jesus, nem a Igreja primitiva viveram de assistencialismo. Isto fica claro nos registros que citei anteriormente de Atos e até mesmo em algumas passagens dos evangelhos sinópticos, como nos relatos da multiplicação dos pães, onde Jesus repartiu os pães e peixes por igual, ensinando-nos a partilharmos tudo e termos tudo em comum. Respeito quem discorde de tudo o que eu disse, mas a igreja protestante com seu pensamento assistencialista e paternalista é a mãe da desigualdade do capitalismo selvagem. Basta estudar com seriedade e honestidade intelectual a história da fé cristã e da humanidade para se notar isto.

Uma outra observação: a Igreja católica, desde a sua fundação, nunca foi a favor do acúmulo de riquezas. Porém, ela omitia isso quando se tratava dos homens grandes do Estado e dos papas. Ou seja, eles poderiam acumular riqueza, mas os fiéis não. Veio o protestantismo e disse: que nada gente, todos que aceitam a Cristo foram predestinados por Deus a serem ricos, então todos devemos ser prósperos.

Legal né?

E o que dizer dos reinos da África que eram imensamente prósperos antes dos “bons” cristãos chegarem por lá e se apropriarem de todas a s riquezas daqueles povos? E o que dizer dos índios aqui nas Américas? Os maias, incas e astecas também eram prósperos, até chegarem os cristãos da Europa por aqui e tomar tudo o que eram deles.

Que coisa não?

 
Escrito por https://www.facebook.com/ser.pensante.16
 

Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre, aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade.

Leonardo Boff

Citação  —  Posted: 20 de Novembro de 2012 in Uncategorized