A fé que merece morrer

Posted: 25 de Novembro de 2013 in Uncategorized

Ricardo Gondim

Sentado na quarta fileira de um auditório superlotado, ouvi um pregador cativar cerca de mil pessoas. A oratória carismática extasiava a sala. Na contramão do frenesi, eu repetia um sonoro não à lógica que sustentava o discurso; dizia para mim mesmo: Já não comungo com os mesmos pressupostos deste senhor. Permaneci calado, obviamente (bastam as controvérsias em que me vi envolvido). Eu me recuso, entretanto, a escamotear dúvidas com cinismo. Escrevo agora para fugir de qualquer inconsequência sobre a fé. Sinto a urgência de reagir ao que ouvi naquele dia. Se não fizer, corro o risco de enrijecer a minha espiritualidade.
Reconheço, algumas intuições minhas sobre teologia ainda estão verdes – mas nem sei se desejo que amadureçam. Contento-me com o pouco sentido que meus pensamentos produzem. Permaneço resoluto em continuar no garimpo da verdade. Descobri um novo veio. Ele pode me fazer abandonar pedras que tomei, outrora, por pepitas de ouro. Que veio foi esse? O que abandonei?
1. Não consigo mais acreditar no Deus lá de cima ou lá de fora. Uma divindade distante, imóvel, e que carece de preces verdadeiras para se mover, não merece minha atenção. A concepção metafísica de um Deus, que na linguagem de Bonhoeffer, funciona ex machina, gera idolatria. Oração, prece ou reza com força de mover o braço de Deus daria onipotência ao fiel – já que ele consegue tirar a divindade de sua apatia. A espiritualidade que restringe a divindade a um provedor celestial, que vive lá em cima ou lá fora, e que pode ser acessado por meio da fé, cria um sistema religioso grosseiro. Eis um dos motivos para Nietzsche denunciar os cristãos. Quem pretende mover Deus em seu benefício não passa de interesseiro, egoísta e covarde. A caricatura de um Deus mágico, supremamente útil quando a vida constrange, não passa de um ídolo. Chegou a hora de acabar com essa divindade-consertadora universal, o Deus dos benefícios territoriais e que, arbitrariamente, distribui seu favor. O ponto nevrálgico, que toca a espiritualidade do século XXI, não é tanto o ateísmo quanto a idolatria.
2. Não consigo mais acreditar que milagres sejam prêmios para o privilégio de poucos. Deus jamais poderia comportar-se como um intervencionista de micro realidades, resolvendo minudências. Como entender um gerenciador cósmico que não desbarata o exército organizado por um ditador? A noção da divindade movida por uma vontade permissiva é cruel. Não faz sentido que ele ajude os seus e faça vista grossa para multinacionais que lucram com remédios que poderiam salvar vidas. O encadeamento da história proposto pela teologia clássica implica na aceitação tácita de uma razão eterna por detrás de tudo. Facínoras como Idi Amin, Pinochet, Stalin e Bush cooperariam com o eterno propósito de Deus. Daí Dostoiévski por na boca de Ivan toda a indignação contra tal divindade. Deus teria que fechar os olhos, seletivamente, para o sofrimento de crianças. Depois de descrever o suplício de uma menina de cinco anos que os pais açoitavam e espezinhavam sem razão e que tinha o corpo coberto de equimoses, Ivan arremata: Toda ciência do mundo não vale as lágrimas das crianças. Não falo do sofrimento dos adultos. Eles comeram o fruto proibido, que o diabo os leve! Mas as crianças!
A grande maioria dos evangélicos latino-americanos acredita que Deus abre portas de emprego, ajuda a resolver causas na justiça, faz casamento, mas não se interessa em acabar com a malária ou com o HIV. Ronaldo Muñoz afirma em seu excelente livro, O Deus dos cristãos (Vozes):
Já não podemos, na hora de raciocinar, entender Deus como o grande relojoeiro do mundo, que no princípio construiu sua máquina e a deixou andar pelos séculos com sua lógica exata e inexorável. Já não podemos, tampouco, nos relacionar com Deus em nossa vida como se ele fosse a alma reitora do mundo; como se fosse o condutor sentado ao volante do cosmos, responsável direto pelos processos e fenômenos do mundo e de cada acidente de nossa vida, como se fosse ele o único que realmente cria e maneja os fios, e todo o resto – inclusive nós – não fosse senão “objeto” seu e instrumento de seus planos.
3. Não consigo mais acreditar que Deus mantém o controle absoluto de tudo o que acontece no universo. Não tolero imaginar uma divindade conspirando, nas sombras, com Aushwitz, Ruanda, Darfur, Iraque e outras hecatombes humanas. Não é concebível que ele, semelhante a um tapeceiro, precise dar nós malditos do lado de cá da história; enquanto, do outro lado, na eternidade, teça o desenho perfeito. Qual o propósito de Deus em permitir que uma bala perdida atinja a cabeça do menino a caminho do treino do futebol? Por que a menina ficaria tetraplégica devido a irresponsabilidade de um motorista bêbado? Se o mal nos agride, ele deve agredir qualquer divindade. Concordo com François Varillon: Em vez de procurar em Deus, a todo custo, a justificação do mal, não será necessário descobrir Deus no próprio centro de nossa contestação e dos nossos esforços por suprimir o mal ou, pelo menos, superá-lo?
4. Não consigo mais acreditar que a função primordial da religião seja acessar o sobrenatural para tornar a vida menos sofrida. O senso comum entre cristãos tenta fazer da religião um meio de controlar o futuro. Para muitos a fé precisa ser preventiva. Eles aceitam como verdade que os verdadeiros adoradores se antecipam aos percalços da vida. Afirmam que os filhos de Deus preveem – e anulam – acidentes, doenças ou quaisquer outros problemas existenciais. Concordo com Paulo Roberto Gomes em sua obra O Deus Im-potente (Loyola): A fé cristã não nega a dor, como o estoicismo; não se resigna, como o masoquismo; não a acolhe no que tem de irremediável. Combate-a e tenta dar-lhe sentido positivo à luz de Cristo. Eu também aceito a fé como aposta. Fé que não foge da lida, encara o drama de viver e incita coragem.
5. Não consigo mais acreditar em determinismo, fatalismo, carma, destino, oráculo, maktube. Depois de ler e reler o Eclesiastes da Bíblia, parei de conceber um cosmos preciso e pontual como relógio de quartzo. Deus criou o mundo com espaço para a contingência. Sem esse espaço, não seria possível a liberdade humana. Não advogo a pura aleatoriedade, todavia. Creio em um meio de caminho entre determinismo e absoluta casualidade. Nesse interstício, reside o arbítrio humano. Entendo liberdade como vocação, nunca como dom: mulheres e homens acolhem o intento do Criador e se empenham para construir, responsavelmente, a história. O porvir não está pronto. A história não foi pre-escrita. Acolher o Deus predestinador não se resume a aceitar o atributo da onipotência. Significa admitir que na vontade soberana não sobra espaço nenhum para a iniciativa criadora e para a autêntica responsabilidade. Um Deus de desígnios imutáveis reduziria tudo e todos a meros instrumentos seus – mais ou menos conscientes. Se ele é o único autor e exclusivo protagonista do drama humano, o solitário condutor da história, homens e mulheres não passam de peões em um vasto tabuleiro de xadrez.
Reconheço, posso assustar, mas não vou recuar. Prefiro tornar-me uma metamorfose ambulante. Melhor não ter uma opinião formada sobre tudo. A constante fluidez de existir exige de mim uma verdade pegajosa, nunca cristalizada como a do pregador que me inquietou – e que nego aqui. Anseio por essa verdade. Ela se dá no caminho. Por isso, prossigo.

Soli deo Gloria

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