Resposta ao texto: “Marina e a Providência Divina” da escritora Bráulia Ribeiro

Posted: 18 de Agosto de 2014 in Uncategorized

Recentemente, Bráulia Ribeiro, escreveu no seu blog presente no site Ultimato sobre a fala da Marina em relação a uma possível “providência divina” em relação ao acidente aéreo que matou o candidato a presidência pelo PSD, Eduardo Campos, e mais outros 7 integrantes. 

O texto da Braúlia está neste link.

Como discordo do texto dela, e meus pensamentos se alinham mais a resposta do Rui Luis Rodrigues, transcrevo ele abaixo:

Não pretendia comentar, Braulia, até porque cansam-me, confesso, alguns desses bizantinismos teológicos. Mas, como meus comentários no Tuíter foram parte da origem de seu post, e como algumas expressões que usei foram mencionadas por você, devo ao menos colocar algumas observações aqui.

Nunca neguei o direito que Marina Silva certamente tem, de expressar como quiser suas convicções religiosas. É direito de todo ser humano e deve ser respeitado integralmente, no limite apenas do respeito às convicções dos outros. Amarrar-se a um cinturão de bombas e explodir junto uma multidão, como expressão de convicção religiosa, obviamente não é nem legítimo nem permissível.

O que questionei não foi a “liberdade” de Marina, mas a oportunidade de sua declaração. Eduardo, no comentário que escreveu ao seu post, captou bem isso. O “ser poupado” suscita imediatamente a outra pergunta: “e os demais, não foram poupados por quê?” Isso é muito doloroso e, em semelhante contexto, indo ao funeral do companheiro de chapa que “não foi poupado”, tem uma dimensão de constrangimento que eu, sinceramente, só imagino que Marina não percebeu por conta do nervosismo e do choque em que ela mesma deveria se encontrar.

A questão não tem nada a ver com “laicismo”. Você se serviu do tema, Braulia, para fazer uma verdadeira salada com temas como “laicismo”, “secularismo”e quejandos. Por trás da sua posição está uma postura que eu temo demais, e que se denuncia pelas duas vezes em que você usa a palavra “cosmovisão”. Conheço bem essa ideologia da “cosmovisão cristã”, estou bem por dentro de suas implicações totalitárias (isso mesmo, totalitárias) e quero distância disso. Mas não vou entrar em polêmica sobre “cosmovisão”.

O fato é que nossa sociedade ocidental, após percursos catastróficos, tornou-se laica. Esse é seu principal diferencial e, se me permite falar como cristão, sua “bênção”. Uma sociedade laica é aquela onde a religião, seja qual for, não determina mais os rumos da vida social. Ela continua, sim, válida para a consciência de seus praticantes, que podem e devem se pautar por ela. Mas, como dizia Hobbes, a consciência religiosa que assume a direção da coisa pública deixa de ser “causa pacis” (causa da paz) para se tornar “causa belli civilis” (causa da guerra civil). Hobbes sabia bem do que falava, assistindo ao teatro da guerra civil inglesa e à pavorosa Guerra dos Trinta Anos, de meados do século XVII, e conhecendo as tragédias das guerras entre protestantes e católicos na França, um século antes.

Mas não basta evocar Hobbes, como estou fazendo, nem Locke, como você preferiu fazer. Esses autores apenas nos ajudam a entender como nossa civilização chegou a essa noção fundamental de sociedade que não é mais gerida pelo princípio religioso, pela simples razão de que o princípio religioso é individual e, no limite, pode indicar qualquer caminho (até mesmo os anti-humanos).

Crer na positividade de uma sociedade laica não é o mesmo que ser anti-religioso. Significa admitir que, num mundo religiosamente plural, precisamos chegar a consensos sobre a vida baseados em outras premissas: os direitos humanos, os males da opressão, a defesa dos mais fracos etc. Debates podem surgir a todo instante, e surgem; mas não podemos mais, na esfera pública, descansar sobre afirmações meramente tiradas de contextos religiosos. Muçulmanos creem que mulheres devem andar cobertas? Que vivam assim, mas que não pretendam obrigar os outros. Alguns cristãos creem que a Bíblia condena a homossexualidade? Que creiam assim, mas que não usem sua crença para discriminar os discordantes, nem para influenciar as votações de leis sobre casamentos de homoafetivos. Sempre haverá os que se consideram cristãos e são homossexuais; sempre haverá os que não são cristãos e não consideram certo serem tutelados pelas leis religiosas de outros.

Para o exame da “teologia da providência” não basta o mero desfiar de textos bíblicos. Nem as soluções fáceis, como sugerir que eu (a referência foi a mim) tirei o “Deus que intervém” da minha Bíblia. Se você se refere ao deus do Francis Schaeffer, provavelmente tirei mesmo (aliás, o próprio filho dele fez isso). Mas não o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Creio num Deus que está totalmente comprometido com a vida, o tempo todo. Isso quer dizer que, em todas as circunstâncias, ele trabalha pela vida e contra a morte. Esse Deus, de quem Jesus fez a mais completa “exegese” possível dentro da história (João 1:18), não poupa uns e entrega outros à morte. Ele não “intervém” aqui e ali; está presente o tempo todo, agindo na realidade, discernível em todas as abordagens e tentativas que visam produzir vida e eliminar o sofrimento.

Mas o mundo possui sua legalidade, título que ele recebeu do Criador. O ser humano possui sua liberdade. E a ação pró-vida de Deus (ou ação “antimal”, como gosta de se expressar o teólogo Andrés Torres Queiruga) precisa dialogar com esses aspectos: a legalidade do mundo, das condições concretas da existência, e a liberdade humana. Por isso nem sempre o agir antimal (ou pró-vida) de Deus triunfa em toda situação.

Em 2009, um membro de nossa comunidade parou o carro em plena Marginal do Tietê para socorrer um motorista com o carro quebrado. Sua noiva estava com ele. Esse rapaz dava aulas às crianças de nossa comunidade; era um cristão fiel, meigo, sensível, humaníssimo. Enquanto ele ajudava o motorista com problemas, um caminhão desgovernado atropelou-o. O moço morreu ali, debaixo das ferragens do caminhão.

Isso foi “vontade de Deus”? Não. Um Deus que tivesse tal vontade não seria Deus, seria um diabo. Foi “permissão” de Deus? Não, porque, havendo poder de evitar, permissão e vontade se equivalem.

Onde estava Deus, então?

Deus estava naquele moço, incentivando-o a viver para os outros; foi isso que o levou a parar o carro e ajudar o motorista, ao invés de simplesmente ir para casa com sua noiva. Mas Deus estava também com o motorista do caminhão, quem sabe sugerindo a ele, duas pontes antes: “Por que você não diminui? Por que você não vai para a pista local, para num posto, toma um café?” Deus talvez tenha estado com o motorista do caminhão um dia antes, dizendo-lhe: “Que tal fazer uma revisão dos freios?”

A tragédia não teve traços da mão de Deus. Estupidez humana, falha mecânica, absurdo de uma cidade desumanizada como São Paulo: tudo isso, sim. Mas Deus, no acidente? Não. A não ser trabalhando para evitá-lo.

Onde estava Deus? Deus estava ali, debaixo das ferragens, junto com aquele rapaz, morrendo ali com ele. Porque esse Deus que nunca nos abandona, não nos deixa sozinhos quando, por alguma razão, seus propósitos em favor da vida não puderam se realizar. Ele nos acompanha.

Como você desconhece minha posição (e de teólogos como Andrés Torres Queiruga) ao sugerir que eu “bani da minha Bíblia o Deus que intervém”! Ao contrário, Braulia, creio num Deus que está presente o tempo todo. Até mesmo quando aparentemente não está. Até mesmo com aqueles que, aparentemente, não foram “poupados”.

Em respeito à fé (e à descrença) dos outros, seria tão bom se refletíssemos mais, teologicamente, sobre isso, ao invés de repetirmos os chavões consagrados!

Com respeito e amor cristão, discordâncias não obstante,

Rui Luis Rodrigues

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