Porque nenhuma teologia é inocente

Posted: 12 de Dezembro de 2012 in Elienai Jr., Pensadores fora do Aquario

Elienai Cabral Jr. —- Blog

Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista, ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é.

Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais: lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida e uma abertura despojada e generosa ao outro e sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor, assistir pessoas em cerimônias fúnebres sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. A pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali então um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações sob a leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da que falecera, dispara cruelmente: – ‘Eu disse a ela; se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!’ Sua mãe, um ano antes, pelo mesmo motivo, também falecera. Deixaram as duas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz de mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandando as dores da despedida. Alguém me pede que ceda um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, as palavras que se congelaram em minha mente: – ‘Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima’. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, observou as palavras desajeitadas do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se em prantos ainda mais sofridos sobre o pai, morto. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência incurável do pai, amigo e provedor. Revoltei-me em meu coração.

Estas cenas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas, pelas razões que forem, comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos matarão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa: mistificação da vida, alienação, herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos.

Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar.

Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo.

Veio em carne, insiste o apóstolo.

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