Archive for the ‘Pensadores fora do Aquario’ Category

Elienai Cabral Jr. —- Blog

Da vertiginosa Primeira Carta de João, dois saltos radicais tiram o fôlego de qualquer anseio religioso. Deus é luz, arrisca o apóstolo. E como se não bastasse, repete a manobra, Deus é amor.

Falar sobre adjetivos divinos é movimento seguro e simples para a teologia e sua insistente projeção idealista, ora, tudo o que nossa imperfeição não nos permite e nos faz padecer, Deus é.

Geme a nossa precariedade, Deus é perfeito. Impotentes, ele outra coisa não poderia ser que não onipotente. Aflitos com o imprevisível futuro, ele esbanja conhecimento, onisciente. Débeis? Ele, santo. Limitados? Ele, onipresente. Mas deixar o rasteiro adjetivismo por altaneiras conceituações, assusta. E é o que faz o discípulo amado.

Não bastasse a reviravolta de deixar de elencar aspectos idealizados sobre o divino, para defini-lo em modos existenciais: lucidez e amor, João nos apresenta sobre Deus o que mais admiramos e mais tememos: uma existência ilustrada pelo corajoso e sensato enfrentamento da vida e uma abertura despojada e generosa ao outro e sua liberdade. Luz e amor.

Em 2001, pastoreava uma pequena e intensa comunidade em Curitiba. Fui convidado para uma experiência que se repetiu diversas vezes na minha história de pastor, assistir pessoas em cerimônias fúnebres sem ser o pastor responsável pela condução do sepultamento. Acompanhando os familiares, membros de nossa igreja, conheci o marido que chorava a morte de sua jovem esposa, membros de outra igreja. A pedido, antes que o pastor que conduziria a cerimônia chegasse, trouxe uma palavra de conforto. Falei sobre a desimportância de se explicar a morte, sempre inusitada e trágica. Também sugeri que se fizesse ali então um exercício de gratidão pelos valores legados por quem partira. Afetos, abraços, palavras, exemplos, valores deixados como um presente. Entre outras observações sob a leitura da Bíblia, orei e abençoei o lamento acompanhado de gratidão. Instantes depois, vários parentes em torno do caixão choravam e lamentavam. Uma das tias, a matriarca da família, beata da mesma igreja evangélica da que falecera, dispara cruelmente: – ‘Eu disse a ela; se não tinha fé que tomasse o remédio. Olha no que deu!’ Sua mãe, um ano antes, pelo mesmo motivo, também falecera. Deixaram as duas de usar o medicamento para controle de hipertensão, em nome da fé pregada por sua igreja.

Já em 2005, pastoreando em São Paulo, desta vez conduzindo a cerimônia de sepultamento de um jovem senhor de nossa igreja, experimentei ali, à beira do caixão, a fé exposta à luz de mais intensa experiência humana com a finitude: a morte. A capela estava lotada de familiares e amigos, todos acompanhavam a esposa e suas duas filhas. Nem é preciso citar a tristeza, mas vale a pena dizer que todos os movimentos de apoio e conforto, abraços, olhares, palavras e orações, já haviam abrandando as dores da despedida. Alguém me pede que ceda um espaço para que um amigo pudesse também falar algo, pastor da igreja de um dos familiares. Entre outras coisas, as palavras que se congelaram em minha mente: – ‘Deus o levou, porque era tão bom, que o Senhor precisou dele lá em cima’. Neste instante, foi inevitável conferir o rosto de uma das filhas, inclinada sobre o caixão. Por alguns segundos, observou as palavras desajeitadas do pastor, para em seguida, com tristeza insuperável, voltar-se em prantos ainda mais sofridos sobre o pai, morto. Fiquei imaginando o que poderia ter passado pela cabeça daquela menina, que vivia os piores dias de sua vida e que experimentaria nos dias seguintes a ausência incurável do pai, amigo e provedor. Revoltei-me em meu coração.

Estas cenas desenham o mal que uma espiritualidade que se ressente de lucidez pode proporcionar aos crentes. Pensar sobre Deus não é um exercício inocente. Nossa teologia desemboca em nossas mais delicadas experiências com a vida. Concepções mantidas, pelas razões que forem, comodismo, política ou conservadorismo, podem se instalar em nossas relações como toxinas que nos matarão lenta e implacavelmente.

Quando João nos apresenta uma teologia existencial, sua preocupação já é com a espiritualidade intoxicada de culpa: mistificação da vida, alienação, herança das influências do gnosticismo sobre os cristãos.

Deus é luz, portanto não há outro mundo e nem outras forças a agirem sobre nós que não as que um bom siso não possam elucidar.

Deus é amor, pois qualquer espiritualidade que suprima a liberdade humana, princípio mor de seres amantes que somos nós e o divino, é a negação de nossa humanidade, a mesma que o Deus que é amor fez questão de assumir para si mesmo.

Veio em carne, insiste o apóstolo.

A brisa do Amargoso

Posted: 18 de Agosto de 2009 in Pensadores fora do Aquario



Ricardo Gondim.

José Cícero despertou subitamente. Sentiu falta do canto do galo que rompia o silêncio um tiquinho antes do amanhecer. “Que diabo, comemos o galo”, pensou sem pensar. Virou-se na rede e viu os ossos triturados que se espalhavam pelo chão e ainda mexeu o queixo para lembrar a dor de mastigar aquela carne dura com os últimos cinco dentes que lhe restavam na boca. “Arre”, pensou e falou sua interjeição incompleta. Ainda quis acordar a mulher que roncava com a boca meio aberta, mas desistiu, ela não se bulia; parecia num coma, de tão apagada.

José Cícero ainda tentou levantar-se da rede, mas sua alma pesava mais que o corpo esquálido e assim permaneceu, olhando para o teto. Lentamente, pingos de luz brotaram pela palha esgarçada. Há muitos anos José Cícero não via aquela invasão lenta do dia; a última vez que contemplara a visita do sol por entre a carnaúba que protegia sua casa estava com febre e nem gostou do que viu. “Arre”, repetiu mais uma vez, sem emoção.

Há dois anos não chovia no Amargoso e José Cícero não queria ver mais uma manhã sem nuvens; na verdade, ele estava prestes a desistir da vida. Seu único desejo era continuar ali, deitado como um rei em berço esplêndido ou, quem sabe, como um náufrago que já não espera por salvamento. “Arre égua, que vida, essa minha”, completou a frase.

José Cícero nascera ali bem perto, no casebre que ladeia o charco onde cresce a cana. Dizem que no dia em que veio ao mundo, uma coruja deu um rasante com aquele vôo sinistro que soa como se rasgasse mortalha. Naquela manhã até pensou em sua sina de sofrer, mas aquietou o coração quando lembrou que o Tonho, a Zilda, o Bastião e todos os amigos de infância sofreram igualzinho – todos, desdentados.

Sem ânimo e sem força, empunhou a borda da rede e conseguiu se erguer. Os meninos dormiam, respirando no mesmo ritmo que Chica, a mulher que lhe parira os quatro meninos morredores – dos sete, só três vingaram. Enterrou Mundinho, o primogênito, quatro dias depois que nasceu; em sua vida curta, Mundinho só chorou.

Em pé, José Cícero abriu a janela que rangeu como um lamento e espiou as cruzes das quatro covas. Lembrou-se qual era a do Mundinho, a única que lhe provocou alguma lágrima. Quando enterrou Zé Carlos, Carminha e Cícero Junior sentiu igualzinho como se abrisse buraco para as sementes de feijão no mês de dezembro, pouco antes da chuva – que nunca vinha; nesses outros enterros, não mexeu nenhum músculo do rosto.

Parado, José Cícero parecia querer recobrar as forças do tempo em que serviu o Tiro de Guerra e ouviu do sargento que era cabra macho, bom de briga. Mas ainda não completara 37 anos e já se sentia um velho, carcomido pelas estiagens, pela gordura de porco que colocava no feijão ralo e pela água imprestável que deu a diarréia que matou os meninos. Imóvel, viu o sol arder e brilhar com uma força descomunal cobrindo o mato de um cinza mortiço.

Chica balbuciou alguma coisa, mas José Cícero não reagiu; absorto, tentava adivinhar onde enterrara os meninos. Contou da direita para a esquerda, quase soletrando o nome dos filhos, mas as cruzes não lhe falavam coisa alguma. Alguns passarinhos o despertaram daquele torpor e ele se voltou para o barulho que a mulher fizera. Não era nada, Chica ainda dormia.

José Cícero se inquietou, Chica nunca dormira até tão tarde. Chegou a pensar que a mulher fingisse para não ter que ir buscar água no barranco, mas se corrigiu: “Não, Chica nunca perdeu a coragem, isso ela tem de sobra”. Mas e os meninos, por que não acordavam? Temeu perder a família toda. “Se a coruja voar de novo rasgando mortalha, morre todo mundo”, pensou.

Já passava das sete, quando ouviu:

-O que tu tá fazendo, aí parado?. Era o jeito rude de desejar um bom-dia de dentro da rede.

– Sei lá, mulher, tô só, cá comigo, pensando na vida.

– E pensar na vida resolve nada?

– A gente tem que buscar água, porque a do pote secou ontem de noitinha. Avexe porque tô pedindo penico, mulher. Não agüento mais essa vida. Hoje não vou buscar água, não.

– Homem, deixe de coisa. E os menino? Se lembre que a gente ainda tem três pra dar de comer e de beber e não tem nada em casa.

– Pois é neles mesmo que estou pensando. Pra que viver do jeito que a gente vive, Chica? Minha vida foi só sofrimento e a deles também vai ser. Feliz foi o Mundinho que não teve que passar pelo que a gente passa e já é anjinho. Esses três vão virar gente grande e o que vai ser deles?Teve um pastor que passou por aqui me dizendo que se gente grande não se arrepender vai pro inferno. Então mulher, não é melhor morrer logo?

– Ciço, pára de besteira, você tá ficando doido. Não blasfema de Deus, teu padim, o Padre Cícero, vai pedir por nós.

Naquele exato momento, José Cícero se lembrou da romaria que fez até o túmulo do seu padim em Juazeiro. Voltou-se para o armador da rede e o chapéu de palha continuava pendurado para dar sorte; o mesmo que o padre benzeu prometendo que ia trazer fartura no próximo inverno – já fazia dois anos que não pingava quase nada. José Cícero perdera toda a plantação nos dois anos e não se conformava que, por mais que olhasse para o horizonte, as nuvens não empreteciam.

– Sabe, Chica? Eu acho que Deus não liga pra gente. Ele prefere os filhos do doutor Virgílio. Eu me lembro do dia em que o Tiago teve febre e o doutor me pediu para ir buscar o médico da cidade. Bastou o menino tomar a injeção e já tava bonzinho. A gente enterramos quatro filhos no chão seco, sem direito a caixão. Eu me lembro da hora que jogava terra na cara do Mundinho. Eu dizia: “Não é direito não ter nem uma caixa de sapato para proteger o filho dessa terra seca; nós nem pode enterrar com a rede porque tem que guardar a rede pros outro.

–Ciço, por favor, não fala desse modo. Eu te peço pela hóstia consagrada, não blasfema de Deus.

– Nesse mundão, cada um tem que se proteger como pode. Eu tentei, mas num tenho mais força, mulher. Comemos o galo e hoje não tem nada pra por no fogo. Como é que vou caçar? Vendi a espingarda que era do pai. E não tem mais nem tatu para matar, mulher. A seca tá muito braba.

– Pois eu vou aderir à lei dos crentes. Vou no culto deles pedir com muita fé pra Deus mandar chuva.

Chica se levantou, foi até o quintal, urinou, ajeitou a lata vazia na cabeça e seguiu para o barranco, antes que acabasse a água do dia.

Logo que chegou no buraco lamacento notou o pequeno filete d’água, mas só se alegrou de verdade quando notou a irmã Salete – a crente mais conhecida da redondeza.

– Bom dia.

–Bom dia, respondeu a irmã Salete, baixinho.

– Irmã, vim pedir pro modo de você pedir pra Deus pra ele mandar chuva.

Salete continuou calada. Chica precisou mirar os olhos da irmã para entender o que acontecia. Salete chorava com duas tiras de lágrimas correndo pelos sulcos cavados pelas rugas. Arquejada e abatida, tentava separar o barro com os dedos para que a água não se tingisse de branco. Chica perguntou o que estava acontecendo.

– Precisei vir mais tarde buscar água porque acabamos de enterrar os nossos dois filhos, a Miriam e o Pedro; morreram de diarréia.

Fez-se um silêncio constrangedor; não se ouviu mais nada a não ser um leve sicio do vento abrasador.

Soli Deo Gloria.


Leonardo Sakamoto

Com as refilmagens de “O Poderoso Chefão” no Senado, muitas pessoas, indignadas com a política, têm feito seus protestos. Acham que aquilo é o máximo da participação cidadã e que terá um efeito avassalador nos salões do Congresso Nacional. Na minha avaliação, isso é de uma inutilidade atroz, só comparável à compra de indulgências durante a Idade Média.

Começam pelas correntes na internet – não peguei até agora uma que trouxesse alguma possibilidade de causar alterações reais. Mas o pessoal acha que está mudando o mundo através do spam. Triste.

Isso passa pelos “flash mobs”, aquelas manifestações relâmpago organizadas pela internet. Eu estava na avenida Paulista, dia desses, quando um grupo de umas 80 pessoas se reuniu no vão do Masp e começaram a protestar. Cruzavam a faixa de pedestres quando o semáforo fechava e retornavam à calçada quando abria. Gritavam “Fora Sarney!” Uma senhora, já avançada em anos e sabedoria, parou, olhou, refletiu e me perguntou: “é alguma festa?” Respondi que, de certa forma, sim. Um ato mais para expiação da culpa individual do que algo realmente construtivo. Depois o povo deve ter ido tomar um refri na rede de fast food mais perto.

Também atinge as reclamações e ações virtuais em blogs e twitters. Já postei muita coisa sobre a atual crise neste blog, sei que o acesso à informação contribui para a conscientização do problema real e não apenas de sua superficialidade aparente, mas não tenho a mínima pretensão de achar – como alguns – de que o mundo virtual sozinho pode ser a ponte para a derrubada de fulano ou ciclano do poder.

Muita gente se esconde atrás da tela de um computador, mas não tem coragem de usar as armas da democracia para tirar aquele povo de lá. A indignação vai durar enquanto o tema estiver no topo dos mais comentados, vai seguir a pauta política da situação e da oposição e não a da sociedade. Não chegará às próximas eleições. Depois, a indignação dará lugar à outro sentimento exatamente porque ela não é real, não veio de dentro para fora e sim de fora para dentro. Para alguns, foi embutida ali, como uma moda. A moda hoje é estar indignado. Amanha é usar azul celeste.

E falando em cores, um outro protesto foi inacreditável. Recebi um torpedo ordenando que, no dia seguinte, todos vestissem preto para derrubar o Sarney. Mas não vi alteração significativa nas ruas. Certamente quem mandou o SMS deve ter achado que quem usava o pretinho básico protestava ferozmente.

Por fim, os protestos da turma do antigo “Cansei!” Dia desses, zapeando canais, parei em um daqueles programas bregas de fofocas da alta classe. Ícones do “Cansei!” reclamavam, enojados com tudo e com Brasília. Depois, apareciam, na mesma festa, abraçados com políticos que não têm currículo e sim capivara, ficha corrida. Eles cansaram, mas foi só de brincadeira. Até porque o caviar tem que sair de algum lugar, não?

Enquanto isso, quem protesta de verdade, tentando mudar as coisas, é taxado de vagabundo, louco, imbecil, retrógrado, egoísta. Por que? Porque eles não protestam como eles, seres civilizados, que nunca parariam o trânsito. Para estes manifestantes de butique, o protesto tem limites. A partir daí, vira arruaça.

Estava voltando de Brasília e não conseguiu deixar de ouvir uma conversa de duas mulheres sentadas atrás de mim no avião. Aliás, a aeronave inteira ouviu, porque elas falavam muito alto:

– Você viu que morreu uma daquelas sem-terra na rodovia dia desses. Atropelada.
– Também, estava andando no meio da estrada, fazendo protesto. Atrapalhando o trânsito.
– Não gosto daquela gente, sabia? São um bando de arruaceiros. Por que não vão arrumar um emprego ao invés de ficar protestando por aí?
– Tem gente que não sabe se encaixar.

“Encaixar”! Nossa elite é o máximo, de uma sinceridade aviltantemente bonita! É o velho: ponha-se no seu lugar! Eles cantam Chico Buarque, mas não entendem o que ele diz – talvez se soubessem, parassem de cantar. Pois foi uma trabalhadora rural do MST pedindo reforma agrária, mas poderia ter sido um pedreiro caindo de um andaime, sonhando com uma vida melhor: “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

Ontem, também na avenida Paulista, foi realizado um protesto de verdade contra a crise no Senado, que juntou sindicatos, movimentos populares e estudantis, organizações da sociedade civil. Mais de quatro mil pessoas, de acordo com a polícia.

Um taxista, ao ver o trânsito causado pela manifestação, começou a gritar: “Cambada de vagabundos! Vagabundos!” (como o prefeito Kassab naquele ataque de histeria anos atrás…) Perguntei o motivo. “Porque eles estão atrapalhando o tráfego. Por que não vão arranjar um emprego!”

Exercer sua cidadania e colocar a democracia em prática em um país como o Brasil é perigoso. Além de poder morrer atropelado, ser xingado e considerado um inútil, você ainda pode ser desalojado e tratado como um marginal.

Tempos atrás, moradores de uma favela próxima ao Real Parque, zona Sul de São Paulo, fecharam as pistas da Marginal Pinheiros para protestar contra a derrubada de suas casas. Seus barracos estavam em um terreno público e a prefeitura resolveu removê-los antes de finalizar negociações. Afinal de contas, a gente bonita que passa por aquele bairro rico não é obrigado a ver aquelas casinhas de madeira feias. Houve bombas de gás, surras de cacetetes, enfim, aquela corja tinha que acabar com aquilo. Na mídia, a ênfase estava nos relatos sobre o congestionamento causado, o ato era apenas um detalhe.

O tráfego, sempre ele, que reina soberano em uma cidade que quer funcionar como um relógio suíço, sem se atrasar. Protestos agendados, marcados, pequenos, ordenados com começo, meio e fim, protestos que não mudam nada só expiam culpa, são o desejo de muitos paulistanos, cada vez mais embutidos no sistema. Não conseguem perceber que manifestações que fogem disso, que rompem a lógica, é que são reais e têm poder de mudança.

No fundo e por trás de tudo isso, uma pergunta ecoa no peito de muita gente das classes média alta e alta desse país quando defrontada com tudo isso: Mudar para quê? Time que está ganhando, não se mexe.

Blog do Sakamato – dica do Pavablog

Missão Integral

Posted: 17 de Agosto de 2009 in Pensadores fora do Aquario
Passei o dia no Fórum Jovem de Missão Integral . Dentre várias discussões relevantes, destaco a relação entre evangelização e responsabilidade social, ainda é presente.

A razão desta dicotomia é o conceito de evangelização como proclamação de uma mensagem, mais precisamente o plano de salvação, resumido em palavras de convocação para que as pessoas individualmente receberem Jesus como Salvador pessoal.

Evangelização, no contexto da missão integral, é mais do que compartilhar uma mensagem, é anunciar uma realidade: a chegada do reino de Deus (Mateus 4.12-17; Marcos 1.14,15). Apresentar o reino de Deus implica mais do que a proclamação de uma mensagem. Assim como o exército vencedor sai anunciando que a guerra acabou e estabelecendo uma nova realidade aonde chega a notícia, também a igreja deve anunciar ao mundo que o rei justo e verdadeiro venceu o diabo na cruz do Calvário ao mesmo tempo em que destrói as obras do diabo na sociedade (Mateus 4.23-25; Lucas 4.18-21; 7.20-23).

A igreja que se compromete a ser um sinal histórico do reino de Deus não faz distinção entre evangelização e ação social, pois não compreende uma sem a outra, ou melhor, compreende que a evangelização implica necessariamente a ação social.

Ed René Kivitz

A chuva do Piauí

Posted: 16 de Agosto de 2009 in Pensadores fora do Aquario
Ricardo Gondim

Consternado, ouço que dois estados pobres do Brasil continuam castigados por um aguaceiro inédito, principalmente em se tratando de nordeste – se bem que o Maranhão tende para o norte. Desalojados das taperas de pau-a-pique, mulheres, crianças, idosos e camponeses foram obrigados a se albergarem em galpões construídos para animais. Triste, muito triste!

Reflito nas implicações teológicas dessas tragédias. Dentro da lógica que fui treinado, Deus permite tais acontecimentos para que as peças de seu imenso tabuleiro se encaixem. Assim, ele, o Todo-Poderoso, conduz a história para o apogeu final.

“Mas”, minha mente irrequieta e atrevida pergunta, “por que o Senhor tem tanta birra de pobre?; por que os dramas alcançam primeiro os que se arrastam por uma existência inumana?; e sempre com mais perversidade?”. No final de maio, o âncora do jornal das oito e quinze avisou que a temperatura global continua sua escalada gradativa. Em 2030 estará dois graus mais quente. O globo sofrerá, mas a devastação da África terá dimensões apocalípticas.

Basta fazer uma conexão simples. Se Deus é bom, como eu acredito, os modelos teístas da teologia clássica se mostram inadequados. Não é possível que na distribuição dos castigos, a ira divina sempre comece pelos pobres. Para mim, as razões que tentam desatar o nó da teodicéia, empacam. O choro de crianças agonizando em clínicas imundas, as valas rasas que sepultam multidões, os campos de refugiados das Nações Unidas esbofeteiam os teóricos da religião.

O modelo de compreensão de Deus e de sua relação com a humanidade precisa ser repensado. Caso contrário, restam dois caminhos: cinismo ou perda da fé. Cinismo significa a afirmação do dogma sem preocupação de conectá-lo com a realidade.

O fundamentalismo cristão navega nestas águas. Para um fundamentalista, não importa o tamanho da catástrofe ou o horror do holocausto, desde que o texto seja garantido e o dogma, enfatizado. Acreditam que para cumprir uma profecia, Deus não hesita em produzir fome, peste, guerra.

Apresentaram esse Deus a Carlos Drummond de Andrade. O poeta o rejeitou, preferindo o ateísmo. Sua crônica Capítulo do Gênesis expressa a profundidade de sua indignação:

1. E o Senhor, vendo que os homens não melhoravam, antes se tornavam piores, decidiu mandar-lhes uma chuva de advertência; e com isso lhes manifestava seu enfado, e que outro dilúvio não estaria fora de suas cogitações,

2. E a chuva começou a cair, a princípio alegre com seu destino de chuva; insistente, depois, e zangada, fazendo aluir a morada dos homens.

3. E os caminhos se encheram de lama, e na lama passavam cadáveres de criancinhas com suas bonecas; e também boiavam corpos de velhos e de moços na eflorescência do amor.

4. E as águas cumpriram seu serviço e se retiraram ao campo de um dia; e quedou sobre a Terra uma dor feita de mil dores.

5. Nisso vieram os sábios da cidade e puseram-se a fazer a exegese da catástrofe; e concluíram que todo o mal provinha de certas povoações altaneiras, desligadas do corpo social, a que se dava o nome de favelas.

6. As quais, dependuradas na crista e no declive dos morros, vertiam sobre a cidade, com algumas notas de músicas, seus detritos e sua miséria, travando o escoamento das águas.

7. E individualmente se chamavam Querosene, Escondidinho, Pasmado, Martelo, Pretos Forros, Cabrito, Vintém, Cantagalo, Curras das Éguas, Nheco, Borel, Esqueleto, Catacumba e apelativos que tais.

8. E mereciam ser destruídas; pelo que se escolheu a Favela da Catacumba, de nome exemplar, para ser arrasada primeiro que as outras, e das outras a hora soaria a seu tempo.

9. E milicianos, na calada da noite, subiram até lá e arrasaram-na, ateando fogo aos escombros; e os sábios se persuadiram de que haviam acabado com a causa primeira da enchente.

10. Embora não houvesse acabado com a causa maior das favelas; e os favelados foram recolhidos a uma casa de boa-vontade, enquanto seus pertences tomavam rumo de uma praça de jogos, Maracanã chamada.

11. E havendo entre esses alguns tamboretes e cadeiras, bem podiam ser aproveitados para assento de amadores das grandes justas de atletas, que eram a glória da cidade.

12. E reinou sobre o morro um silêncio catacumbal, que nem a voz de um papagaio bicava.

13. E seus antigos moradores, depois de alguns dias na casa de asilo, subiram a outro morro ainda virgem e lá plantaram seus fogos e entoam sua música.

14. E outra vez choverá o aborrecimento de Deus, e eles serão responsabilizados, expulsos, apartados de seus bens, e descobrirão novos terrenos de cume, de onde voltarão a ser tangidos.

15. E milicianos em número crescente desalojarão ainda mais numerosos catacumbeiros.

16. A menos que o Senhor, em sua ira, se lembre de consumar a ameaça promova a magna chuva final.

17. Da qual ninguém escapará; e depois dessa ninguém será acusado e molestado por ninguém.

18. A menos ainda que, a poder de palavras e sutis manobras, os sábios consigam desviar a atenção do Senhor para outros mundos ainda mais errados que este.

Teologia, que brota das tragédias, vai bater de frente com as elaborações absolutizadas dos pensadores profissionais. Admito, pode não responder plenamente a angústia que o sofrimento de inocentes suscita, mas será mais verdadeira.

Soli Deo Gloria

A Máscara Secular

Posted: 15 de Agosto de 2009 in Pensadores fora do Aquario

Nossa sociedade é mais preocupada com as vítimas do que qualquer outra. Mesmo quando insincero, quando não passa de um grande espetáculo, o fenômeno não tem precedentes. Nenhum período histórico, nenhuma sociedade que conhecemos, jamais falou sobre as vítimas do modo como falamos. Podemos detetar no passado recente as primeiras manifestações desta atitude contemporânea, mas a cada dia novos recordes são quebrados.

Examine fontes antigas, pergunte em qualquer lugar, vasculhe os cantos do planeta e não irá encontrar em lugar algum coisa alguma que lembre mesmo que remotamente nossa preocupação contemporânea pelas vítimas. A China dos mandarins, o Japão dos samurais, os hindus, as sociedades pré-colombianas, Atenas, Roma republicana ou imperial – nenhuma dessas sociedades demonstrava qualquer preocupação por suas vítimas, que sacrificavam sem número aos seus deuses, à honra da pátria, à ambição dos conquistadores, grandes ou pequenos.

Nossa sociedade aboliu a escravidão e a servidão. Mais tarde vieram a proteção às crianças, às mulheres, aos idosos, aos estrangeiros de fora e de dentro. Há ainda a batalha contra a pobreza e o subdesenvolvimento. Mais recentemente tornamos universal a assistência médica e a proteção aos deficientes.

A cada dia cruzamos novos limiares. Quando uma catástrofe ocorre em algum lugar do globo, as nações mais priviliegiadas sentem-se obrigadas a enviar auxílio ou participar nas operações de resgate. Alguém pode afirmar que esses são gestos mais simbólicos do que reais, e refletem apenas uma preocupação com prestígio. Sem dúvida, mas em qual período antes da nosso e debaixo de qual céu a assistência mútua internacional representou uma fonte de prestígio para as nações?

Uma única rubrica engloba tudo que estou sumarizando agora em nenhuma ordem particular e sem nenhuma intenção de ser completo: a preocupação com as vítimas. Essa preocupação é às vezes exagerada e tão caricata que presta-se ao riso, mas deveríamos nos guardar contra a tentação de vê-la como mais um item, como nada além de tagarelice ineficaz. Trata-se mais do que uma comédia de hipocrisia. Ela criou ao longo dos séculos uma sociedade como nenhuma outra, e está unificando o mundo pela primeira vez na história.

A porção essencial do que circula agora como direitos humanos está no reconhecimento indireto do fato de que cada indivíduo ou cada grupo de indivíduos pode tornar-se “bode expiatório” dentro de sua própria comunidade. Enfatizar os direitos humanos equivale a uma tentativa (anteriormente impensável) de controlar o incontrolável processo de contágio mimético/imitativo violento.

O que temos é o reconhecimento vago da possibilidade de que qualquer comunidade pode acabar perseguindo seus próprios membros. Isso acontece sempre que uma multidão se mobiliza de repente contra qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer modo, qualquer que seja o pretexto. Também acontece, mais frequentemente, quando uma sociedade torna-se permanentemente organizada na base dos privilégios de poucos às custas de muitos, quando formas de injustiça social perpetuam-se por séculos, às vezes por milênios. A preocupação com as vítimas busca proteger-nos contra as incontáveis variedades do mecanismo de vitimização.

Ninguém teve sucesso em tornar a preocupação pelas vítimas algo “ultrapassado”, e isso porque ela é a única coisa no nosso mundo que não é resultado de uma moda recente (embora muitas modas surjam a partir dela). A ascensão do “poder das vítimas” coincide, e não por acidente, com a chegada da primeira cultura planetária. Os antigos absolutos ruíram – humanismo, racionalismo, revolução, até mesmo a ciência. Ainda assim não vivemos num vácuo niilista, porque resta a preocupação com as vítimas, e é esse valor que domina a cultura planetária em que vivemos. Ela é nosso absoluto.

A preocupação com as vítimas leva-nos a opinar que nosso progresso rumo ao humanitarismo tem sido demasiado lento, e que não devemos de forma alguma glorificá-lo, a fim de não torná-lo mais lento ainda. A preocupação moderna com as vítimas obriga-nos a nos condenarmos perpetuamente. Característicamente, nossa preocupação com as vítimas nunca se mostra satisfeita com sucessos passados. Ela jamais louva a si mesma, nem tolera seu próprio louvor. Tenta desviar continuamente a atenção de si mesma, porque devemos estar atentos apenas para as vítimas. Nossa preocupação denuncia sua própria negligência, seu próprio farisaísmo. Nossa preocupação com as vítimas é a máscara secular do amor cristão.

Em resumo, o que nos impede de examinar nossa preocupação pelas vítimas é essa própria preocupação. Quer seja fingida, quer seja sincera, ela é compulsória em nosso mundo, e sem qualquer dúvida originou-se no cristianismo. A preocupação pelas vítimas não opera na base das estatísticas; opera segundo o princípio dos evangelhos, da ovelha perdida pela qual o pastor, se necessário, abandonará o rebanho inteiro.

René Girard, I See Satan Fall Like Lightning

Uma severa ressalva que devo levantar com relação a esta sacada de Girard está em que, quando se lê o capítulo inteiro do qual estas reflexões foram extraídas, fica manifesto que o autor se ressente de que a preocupação com as vítimas exista no mundo sob uma máscara secular. O sonho de Girard era que a igreja e o cristianismo fossem celebrados planeta afora como a verdadeira fonte deste admirável mundo novo. De minha parte, vejo como motivo de veemente celebração e glória que não seja assim.

Mais sobre o assunto na série de artigos que ainda não escrevi, sobre o desnorteante brilhantismo e os esperados atoleiros do pensamento de Girard.

Paulo Brabo

Fonte: Bacia das Almas