As invisíveis restrições à liberdade

Posted: 29 de Abril de 2012 in Uncategorized

Fonte: A Bacia das Almas

Quando tentamos formar nossas opiniões de maneira inteligente nossa tendência é aceitar o julgamento daqueles que por sua educação e ocupação são forçados a lidar com o assunto em questão. Pressupomos que suas opiniões sejam racionais e baseadas numa compreensão inteligente desses problemas. Essa nossa crença esta fundamentada na pressuposição tácita não apenas de que esses possuem algum conhecimento especial, mas também de que são livres para formar opiniões perfeitamente racionais. É fácil, no entanto, verificar que não há qualquer tipo de sociedade humana em que tal liberdade exista.

Creio que posso deixar meu argumento mais claro através do exemplo da vida de um povo cujas condições culturais são bastante simples. Escolho para esse propósito os esquimós, que em sua vida social são extremamente individualistas. Seu grupo social tem tão baixa coesão que não temos praticamente o direito de falar em tribos. Um certo número de famílias se ajunta e passa a viver no mesmo vilarejo, mas não há nada que impeça qualquer uma delas de viver e estabelecer-se em outro lugar com outras famílias. De fato, no período de uma vida as famílias que constituem um vilarejo esquimó mudam constantemente de comunidade; e embora retornem em geral, depois de alguns anos, para o lugar em que vivem seus parentes, a família pode ter pertencido a um grande número de outras comunidades.

Não há autoridade investida sobre qualquer indivíduo, não há chefes e nenhum método pelo qual ordens, caso fossem dadas, deveriam ser levadas a cabo. Em resumo, no que diz respeito a legislação temos uma condição de anarquia quase absoluta. Podemos portanto dizer que cada indivíduo é inteiramente livre, dentro dos limites de sua capacidade mental, para determinar seu próprio modo de vida e seu próprio modo de pensar. Porém não é difícil demonstrar que há incontáveis restrições que acabam determinando o comportamento desse indivíduo. O menino esquimó aprende a manejar a faca, a usar o arco e flecha, a caçar, a construir uma casa; a menina aprende a costurar e remendar roupas e a cozinhar; durante a vida toda eles usarão suas ferramentas do modo que aprenderam na infância. Novos inventos são raros, e toda a vida industrial do povo segue canais tradicionais. O que é verdadeiro para suas atividades industriais aplica-se da mesma forma a suas idéias. Certos conceitos religiosos foram transmitidos a eles, noções a respeito do que é certo e errado, certas diversões e a fruição de determinados tipos de arte. É improvável que ocorra qualquer desvio desses padrões.

Ao mesmo tempo que nunca lhes passa pela cabeça que qualquer outro modo de pensar ou de agir seja possível, eles consideram-se perfeitamente livres no que diz respeito a suas ações. Com base em nossa experiência mais ampla, sabemos que os problemas industriais dos esquimós poderiam ser resolvidos de muitas outras maneiras, e que suas tradições religiosas e costumes sociais poderiam ser muito diferentes do que são. De um ponto de vista externo e objetivo podemos ver claramente as restrições que amarram o indivíduo que se considera livre.

DE FORA PODEMOS VER CLARAMENTE AS RESTRIÇÕES QUE AMARRAM O INDIVÍDUO QUE SE CONSIDERA LIVRE.

Dificilmente será necessário prover exemplos adicionais dessas ocorrências. Pode ser desejável, no entanto, ilustrar o enorme poder dessas idéias que restringem a liberdade de pensamento do indivíduo, resultando em sérios conflitos mentais quando a ética tradicional da sociedade entra em conflito com reações instintivas. Dessa forma, em certa tribo da Sibéria encontramos a crença de que cada pessoa viverá na vida futura na mesma condição em que se encontrar por ocasião da sua morte. Como conseqüência, o velho que começa a experimentar a decrepitude deseja morrer, a fim de evitar a vida como inválido no futuro sem fim, e passa a ser o dever de seu filho matá-lo. O filho crê na retidão desse mandamento mas ao mesmo tempo sente amor filial pelo pai, e não são poucas as vezes em que o filho tem de decidir entre esses dois deveres conflitantes – o imposto pelo amor filial instintivo e aquele imposto pelo costume da tribo.

Franz Boas (1862–1942)
A atitude mental das classes educadas


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