Como cobrir o Dia do Índio para a TV

Posted: 20 de Abril de 2012 in Uncategorized

Blog do Sakamoto

Cena de fazenda ocupada por indígenas no Sul da Bahia. Take em uma latinha de cerveja aberta e indígenas rindo de algo. Locução do repórter cobrindo as imagens: “Eles estão festejando a invasão de trocentos mil hectares de terra. Terra que, até então, era produtiva”.

Close em um deles, no que fala errado [desfocar as crianças indígenas com cara de pobres ao fundo]. Foco na falta de dentes do entrevistado. Se estiverem sujos, melhor: “Estamos esperando o governo nos atender, né?” [Edita e joga fora a parte do “Os pais dos pais dos meus pais costumavam viver nessa terra. Hoje, minha família vive de favor em outro terreno com outras famílias, né? Muita gente, não cabe, não dá para plantar, né?”]

Passagem para o laboratório da empresa dona da fazenda. Close na lágrima da cientista que perdeu parte da pesquisa com a ocupação na plantação dos eucaliptos: “Isso era a minha vida”. Se possível, subir som, resgatando versão do Milton Nascimento de “Coração de Estudante” que foi cantada no funeral de Tancredo Neves.

Tirar a entrevista com a liderança que fala bonito [“Na verdade, a tribo indígena 
pede há 30 anos que os títulos sobre a área, uma reserva já demarcada em
 1937, sejam anulados. Não estamos pedindo nova demarcação, apenas que se cumpra o que já foi decidido no passado”]. Não vai parecer que é índio, vai parecer que é político. E tirar fora aquelas imagens de crianças indígenas passando fome, refestelando-se com jaca velha. Nosso telespectador não quer ver isso enquanto está jantando.

Passagem para a prefeitura do município. Prefeito: “O medo é grande nas cidades por causa da ação dos nativos.” Locução do repórter: “E o prefeito denuncia.” Close no prefeito: “As ONGs internacionais e o MST é que arregimentaram todo esse povo nas favelas de Salvador para levar nossas terras. Eles não são nem índios. Eles parecem índios para você?”

Entra um “povo fala”. Botar a idosa senhora [“Tenho medo de vandalismo”], o comerciante [“Eles são contra o progresso, não querem ver geração de empregos”], o policial [“Normalmente, há muitas reclamações de alcoolismo com eles”] e o estudante com cara de hippie [“Mas os índios têm direito a essas terras por serem delas autóctones”].

Corta para o repórter na entrada da fazenda. Diz que a paralisação das atividades de produção de madeira na última semana fizeram o Brasil perder R$ 872 milhões em exportações [usar dados da associação de indústrias de celulose]. Repórter completa: “E, entre os invasores, há procurados pela polícia, como o cacique Escambau, foragido há anos”.

Volta para o estúdio, onde o apresentador faz cara de indignação, balançando a cabeça, antes de abrir um sorriso e chamar a matéria do Dia do Índio, em que crianças de uma escola de classe média alta de São Paulo receberam a visita de indígenas do extremo Sul do município. Matéria abre com imagens de jovens índios, no pátio da escola, trajados da forma como se espera deles, dançando, dançando, dançando…

Não é assim de jeito nenhum.

Mas, na verdade, é assim também.

Feliz Dia do Índio.

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