Fome e sede de liberdade

Posted: 11 de Março de 2012 in Uncategorized
Ricardo Gondim
“Somos, pois criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela”. ‘Ser livre’ – como diria o famoso conselheiro… – ‘é não ser escravo’; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo que partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho… Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autônomo e de teleguiado – é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Supondo que seja isso.). 
Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes”.  Cecília Meireles.
Liberdade, palavra apetitosa, provocadora, perigosa; inquietação de alguns, aspiração última de todos. Desejo que se expressa na Pedagogia do Oprimido, na Teologia da Libertação, na Democracia. Para o negro: reivindicar ser o dono de si próprio, não produto mercadejado em praça pública. Para a mulher: o direito de sair do vagão de terceira para sentar lado a lado com quem e onde quiser. Para o homossexual: o fim da discriminação que nega sua prerrogativa de ser cidadão.
Na política, liberdade exige que se considere qualquer forma de tirania como maligna.  Na filosofia,  liberdade é fundamental na construção do ser.  Na teologia, liberdade oferece o sentido central da criação. Paulo de Tarso escreveu: “Foi para a liberdade que Cristo libertou vocês”.
Na teologia, pensar, sentir, desejar e escolher derivam da primeira e mais soberana decisão de Deus: criar semelhantes. O Gênesis  narra que homem e mulher foram criados à “sua imagem e semelhança”. Similitude que indica, não estado, mas vocação. Fazer-se livre como Deus é livre foi meta que animaria toda a história.
C. S. Lewis indagou: “Por que Deus deu então o livre-arbítrio?” Sua resposta: “Porque o livre arbítrio, apesar de tornar o mal possível, é também a única coisa que faz com que todo amor, bondade ou alegria valham a pena. Um mundo de autômatos, de criaturas que trabalhassem como máquinas, não valeria a pena ser criado. A felicidade que Deus destinou as suas criaturas superiores é a felicidade de serem livres e voluntariamente unidas com Ele e entre si mesmas, num êxtase de amor e prazer comparado com qual o amor mais arrebatador desse mundo, entre um homem e uma mulher, não passa de uma coisa insípida. Mas para que isso aconteça, as criaturas têm que ser livres”.
Só existe relacionamento entre livres.
O Novo Testamento faz três declarações categóricas sobre Deus. Deus é espírito (João 4.24); Deus é luz (1João 1.5); Deus é amor (1João 4.8).
Cada afirmação tenta abrir uma réstia de revelação no mistério da Divindade. Quando se diz “Deus é espírito”  comunica-se algo sobre o ser divino.  Na metáfora “Deus é luz” comunica-se algo sobre a integridade de seu caráter. Na expressão “Deus é amor”, comunica-se que a Divindade é relacional.
A razão não basta para explicar Deus. Mas a última fresta escancarou uma beleza magnífica na declaração “Deus é amor”. Para além da compreensão fria, absoluta, sabe-se agora que Deus não conhece outra forma de estabelecer relacionamentos que não seja por amor. Amor genuíno, nunca fictício ou com subterfúgio. Axiomático: para que qualquer relacionamento se torne verdadeiro é necessário que as partes ajam com liberdade. Amor, a mais esplêndida virtude, depende de que os dois lado se sintam com independência ao se envolverem.
Virtude escapa de ser pulsão instintiva quando existe arbítrio. Só nasce a virtude se o vício for rejeitado e o bem, acolhido. Ética é fazer das escolhas colunas do edifício que acolhe o bem.  Qualquer decisão fundamental só deve ser considerada digna se há a possibilidade de algo contrário ser escolhido.
Sem autêntica liberdade, ninguém pode ser responsabilizado pelo que faz.  Quem age por compulsão instintiva não merece crítica ou elogio. Quem age tangido por força irresistível não deve ser responsabilizado por seu ato. O escravo de um instinto carece de ajuda, nunca de condenação. Mérito e dolo fazem sentido quando existe consciência. Animais, dementes e loucos são inimputáveis.
O advogado Charles Finney simplificou: “devido a esse conceito, um ser moral é alguém que possui atividade moral: atributos de intelecto (incluindo razão, consciência e autoconsciência), sensibilidade (a faculdade de sentir toda sensação, desejo, emoção, paixão, dor ou prazer), e livre arbítrio (o poder de escolher ou recusar-se a escolher, em qualquer circunstância, com um obrigação moral)”.
O que tradicionalmente se chama de livre-arbítrio é capacidade de originar as próprias escolhas, de optar, principalmente, nas questões morais. E, para Kant: em conformidade com o dever.
Ao discutir a liberdade, Winkie Pratney afirmou:
“Hoje, o conceito de liberdade está sob grande discussão, não apenas nos campos da psicologia e da sociologia, mas até mesmo nas ciências exatas, como a física… A teoria quântica postula que um observador desempenha papel decisivo na natureza dos eventos. Os seres humanos parecem ser capazes de influenciar o universo físico de uma forma que ninguém jamais pensou nos dias de Newton. Por exemplo, no estudo atômico parece que a forma pela qual se decide medir um evento afeta o comportamento real dos elétrons; se eles permanecem estacionários ou se movem parece ser determinado por aquilo que decidimos olhar. A escolha humana parece governar o comportamento atômico! A ideia de escolha criativa, originada no próprio ser do homem, sugere uma causa que não é causada, algo que traz à existência, afeta ou muda algum outro evento, e que não é, em si mesmo, determinado”.
Por espelhar, minimamente, a Deus, mulheres e homens carregam a capacidade de criar caminhos novos. O dom mais significativo (e trágico) da humanidade: ser genuinamente capaz de transformar a história. Hannah Arendt intuiu milagre como “quebra de todo processo automático”, portanto, homens e mulheres são os únicos com essa capacidade: alterar o futuro e assim, produzir milagre.
No Éden o primeiro casal ganhou o privilégio de cuidar do jardim.  Ali a humanidade foi convidada a unir-se ao Divino na construção da história. No princípio Deus foi “creator” e mulheres e homens passam a ser  “homo faber”. O processo criativo dali em diante acontece por mãos humanas.
Assim, a miséria é resultado de escolhas mal feitas. Não foi intencionada e nunca fez parte das intenções de Deus. A pobreza que oprime e mata deve ser tratada como acinte ao propósito criativo. A antivida é uma aberração, um pecado, não necessária a qualquer intenção eterna. Os desmandos sócio-ambientais que arrasam o equilíbrio da natureza não fazem parte da providência. Armas de destruição em massa não cumprem papel escatológico. Todo mal e tudo o que conspira contra a vida são desarranjos causados pelo uso indevido da liberdade.
Filosofias niilistas e teologias fatalistas nascem de uma mesma premissa: a liberdade não passa de farsa. Ao aceitarem que não existem meios de alterar o inexorável, as duas sucumbem ao determinismo que nega a liberdade.
Os livres estão conscientes do dom de se criarem a si próprios. Eles assumem alterar rotas, parar engrenagens, curar maldições. Na longa e delicada aventura de se fazerem livres, conquistam o trágico privilégio de se comportarem como cooperadores de Deus. Artesãos de outro mundo possível – que espera nascer das entranhas de homens e mulheres que acolhem as palavras de Jesus: “vocês conhecerão a verdade e a verdade os libertará”.
Soli Deo Gloria
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