Por que se desespera a maioria dos jovens haitianos?

Posted: 26 de Agosto de 2011 in Uncategorized

Wooldy Edson Louidor
Colaborador de AlterPresse

Adital

Tradução: ADITAL
Bogotá, 23 de Agosto de 2011.

Por ocasião do Dia Mundial da Assistência Humanitária, no passado 19 de agosto de 2011, o Serviço Jesuíta a Refugiados (SJR) convidou a todos os atores envolvidos na intervenção humanitária no Haiti para unir-se e enfrentar um dos principais desafios do país, a saber: devolver a esperança à maioria das/os jovens haitianos.

Agora é o momento de perguntar-nos por que essa maioria de jovens haitianos se desespera.

O desespero dos pais de família

Ao escutar a vários jovens haitianos que fogem do Haiti em busca de oportunidades na América do Sul, nos surpreendemos com as principais razões colocadas por eles para explicar sua decisão de emigrar, fortemente determinada pela impossibilidade de viver com dignidade em seu próprio país.

Em primeiro lugar, se impõe uma observação preliminar. Nos fluxos migratórios haitianos para a América do Sul, a maioria são jovens e de distintas categorias: desde os mais pobres e os que sabem apenas ler e escrever, até os que provém de famílias de classe média e que terminaram o ensino médio; alguns até já são profissionais… Por exemplo, em um diagnóstico que o SJR acaba de realizar no Equador sobre os haitianos que vivem nesse país, 46% de um total de 283 migrantes entrevistados (majoritariamente jovens, entre 20 e 34 anos) esperava estudar enquanto que 16% disse que queria estudar e trabalhar.

Vários jovens que emigram para a América do Sul são apoiados economicamente por algum de seus parentes que vivem nos Estados Unidos e que estão dispostos a fazer grandes sacrifícios para retirá-los do Haiti e ajudá-los a encontrar um futuro melhor no exterior.

De fato, a grande maioria de jovens, enganados por traficantes que lhes prometeram bolsas de estudos, pagaram aos delinquentes entre 3 a 5 mil dólares americanos, para que os levassem para a América do Sul. As famílias se sacrificaram, vendendo tudo o que lhes restou após o terremoto e, inclusive, hipotecando suas propriedades, para investir no futuro de suas/seus filhas/os. Isto é, para retirar seus filhos de um país que não oferece nada, especialmente para os jovens, inclusive para os que já têm uma carreira profissional ou técnica. Em vez de deixar seus filhos nesse mar de incertezas, as famílias preferem correr o risco de entregá-los a desconhecidos com a esperança de que esses os levem para um destino melhor, aceitando pagar uma grande soma de dinheiro pela “ajuda”.

Durante esse ano, as autoridades equatorianas prenderam a um dos traficantes que enganava aos jovens haitianos, prometendo-lhes bolsas de estudo e, inclusive, oportunidades de emprego; porém, após alguns meses, o delinquente os expulsava da casa onde os tinha mal alojado, sem cumprir com nenhuma das promessas, após ter cobrado de 3 a 5 mil dólares americanos e mais outros gastos de alimentação, alojamento e transporte. Vários jovens, vítimas dos enganadores, quiseram regressar ao Haiti; mas, quando chegaram à sua comunidade de origem, seus pais diziam, desesperados: “e agora, o que vamos fazer?” Esses parentes sofreram não só por ter perdido o dinheiro que investiram, mas por ter perdido a esperança de poder oferecer um futuro melhor aos seus filhos.

O desespero dos próprios jovens

Muitas/os das/os jovens haitianos que encontramos no Brasil, no Equador ou no Chile nos expressaram o cansaço e o desespero que experimentam em seu país de origem ante a falta de perspectivas para o futuro.

Após o terremoto, os jovens e todo o país esperavam uma mudança profunda apesar de, ou melhor, em meio à dor e ao sofrimento que se vivia ante tantas mortes e perdas materiais e humanas.

À medida que o tempo passa, essa esperança vai se desvanecendo como um castelo de areia, já que, nas palavras dos próprios jovens, “a ajuda humanitária não tem servido para nada”; apenas para os interesses das próprias organizações internacionais e das organizações não governamentais (ONGs).

Os jovens criticam também a falta de seriedade e de vontade da comunidade internacional para iniciar o processo de reconstrução do Haiti, apesar de tantos fóruns internacionais e shows midiáticos. Além disso, sentem-se excluídos do planejamento da reconstrução, já que não levam em consideração nem sua participação e nem suas ideias e contribuições ao processo.

São também muito críticos com os políticos haitianos, a quem qualificam de “egoístas”, no sentido de que os últimos defendem somente seus interesses pessoais e os de seus grupos. Além disso, consideram que ditos políticos têm se mostrado incapazes para dar orientações destinadas a oferecer um futuro melhor ao país. Os jovens dão como exemplo a impossibilidade do presidente Martelly e do parlamento de chegarem a um acordo sobre a nomeação de um Primeiro Ministro para dirigir o novo governo. Dois candidatos, Gérard Daniel Rouzier e Bernard Honorat Gousse, que haviam sido designados anteriormente pelo chefe de Estado foram rechaçados pelo Poder Legislativo, no dia 21 de junho e no dia 2 de agosto passados, respectivamente. Atualmente, o chefe de Estado está dialogando e negociando –sem ter assegurada nenhuma possibilidade de êxito- com os parlamentares para poder dotar o país de um governo constitucional depois de cem dias desde que tomou posse como presidente (no passado 14 de maio).

A necessidade de dotar o Haiti de um governo é cada vez mais urgente diante da gravidade dos problemas socioeconômicos enfrentados no país, tais como a falta de acesso aos direitos fundamentais da população; a precariedade de suas condições de vida; sua vulnerabilidade aos desastres naturais, tais como os furacões. Por exemplo, nesse momento, o país está ameaçado pelo furacão Irene, pelo que as autoridades declararam alerta vermelho.

Outro exemplo: a presidência haitiana acaba de informar que a reabertura das aulas, programada para o dia 12 de setembro, acontecerá somente no dia 3 de outubro. A razão dessa decisão é “para permitir que a Presidência, os financiadores e a todas as outras partes envolvidas possam preparar-se melhor para esse momento, dada a situação política atual”, confessa a própria presid~encia em um comunicado de imprensa.

O desespero, talvez a mais profunda crise do Haiti

Talvez a crise mais profunda vivida no Haiti nesse momento seja esse desespero expressado pelos jovens haitianos, principalmente as e os que fugiram de seu país de origem para a América do Sul. E isso, mais do que o agravante da crise humanitária após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, da epidemia de cólera e dos desastres naturais, principalmente das intempéries e dos furacões da temporada ciclônica anual. Mais do que a crise sociopolítica atual provocada pela pugna entre o Poder Executivo e o Parlamento, bem como pelo deterioro cada vez mais profundo dos tecidos sociais e comunitários definidos como “capital social”.

Definitivamente, nem as autoridades haitianas durante a administração do ex-presidente René Préval, nem do atual chefe de Estado, Michel Martelly, nem da Comunidade Internacional conseguiram devolver aos jovens haitianos a esperança de que o país seja reconstruído o quanto antes. Essa é uma das principais razões de desespero da maioria dos jovens.

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