Em busca da unidade perdida: Chamados para perder

Posted: 20 de Junho de 2011 in Uncategorized

Alex Carrari

A ajustagem da mensagem do evangelho em termos pragmáticos sob a suposta necessidade de atender as carências básicas das massas é, na superfície de seus variados arranjos, pura artimanha para facilitar a gatunagem da renda dedicada à casa de Deus, ou de forma mais astuta, serve ao massageamento do ego inflado de “líderes” que alavancam o sucesso pessoal à custa das viúvas pobres do templo e da gordura do altar – que vai dar em gatunagem do mesmo jeito. A grande sacada desses “líderes” para acobertar o próprio desvio e a negação da mensagem límpida do Cristo é fazer da instituição um fim em si mesmo, promovendo a igreja (instituição) ao invés do Reino.

No Reino não há oportunidade para afanar o altar, nem promover a própria imagem, sendo que, conforme indicou o Mestre, o Reino não está nem aqui nem ali, não é comida nem bebida. A igreja (instituição) é lugar provável para alguém mal intencionado, mesmo que sutilmente, montar seu palanque e tocar seu projeto de auto-promoção e assim engordar sua receita bancária e lustrar sua fachada pública de homem de sucesso, espécime a ser invejado e seguido numa sociedade de consumo.

Mas nem só de reais e dólares nutrem-se esta linhagem, a vaidade do coração dá toques peculiares à representação que esses senhores e senhoras fazem de si mesmos, ensimesmados narcisos que admiram não a face em agonia do Cristo no horto, mas seus próprios rostos plásticos refletidos na água suja do lago da soberba. Põem na boca do Cristo palavras que jamais fizeram parte de seu roteiro de discursos. Acrescentam às falas dos profetas uma escatologia que diz que a qualquer momento este mesmo Cristo arrebatará sua classe de preferidos – para obterem um ganho maior – deixando todo o resto nas mãos do iníquo, o anti-Cristo. Colocam a vida dos patriarcas e reis à serviço das expedições, cruzadas de bênçãos geradoras de lucro e mais-valia, atiçando na massa, como se isso fosse uma virtude, a cobiça e o apego cada vez mais exacerbado ao modo de vida baseado no consumo e acúmulo de bens. No lugar da fé, que significa estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente (Tillich), promovem campanhas, em essência pagãs, para provocar Deus e exigir resultados imediatos.

Neste contexto a geração de ambientes que tentam se legitimar com batalhas espirituais, demônios geográficos, castas familiares, maldições hereditárias, corredor de sal, sabonete ungido, lenço do apóstolo etc, são o cancro não cuidado que nos anos 70, 80 e 90 foram bem vistos e quistos como sinais dos tempos da derradeira conquista da nação brasileira pelo “novo Israel”, o povo evangélico. Conquista que produziu asco quando as máfias de Brasília começaram a contar com a colaboração de políticos que antes ocupavam púlpitos – que mais eram palanques – em suas colunas de calhordas, falsários, e ladrões engravatados, desviando dinheiro de ambulâncias, merendas, medicamentos e sabe mais o que. A emblemática cena exposta em horário nobre do “irmão” organizando uma roda, ao modo de uma corrente de oração, após abocanhar pacotes de dinheiro, agradecendo e pedindo bençãos divinas sobre a vida de uma raça de políticos vilões, que depois de um emocionado amém não aguenta e solta um, “que paulada hein”, é sintomática enquanto representa um modelo que não se aprende sozinho, alguém o adestrou para isso.

A anarquia litúrgica planejada em minúcias sob a desculpa de tornar a mensagem mais contemporânea – como se esta fosse inviável à mente pós-moderna devido a seu arcaísmo e linguagem pastoril– incorpora os “louvorzões” com conteúdo e forma verticalizantes e superficiais, campanhas da vitória onde poucos recebem e os outros que esperem sua vez, unção em chaves de carro, rosas oradas pelo “apóstolo”, a Segunda Unção, fotos de parentes em murais, pregação de palavra Rhema, ordenação de restituições, reconquistas territoriais etc. Tudo e mais um pouco para ganhar almas para Jesus.

Nesses espaços a fé deixou de ser entendida, passou a ser sentida. O fetiche da mercadoria tornada sagrada, regulada pelos “homens de Deus”, gera demência e crise de identidade nos crentes, pois, na mercadoria todos são alienados, são sub-produtos do produto. O culto-show encanta pela beleza plástica e engoda pela “abertura” da percepção. Eis a nova estética do “sagrado”. Nada de simplicidade. Nada de gente socialmente insignificante debruçada em torno de uma mesa rústica partindo o pão. Nada de andar na companhia de excluídos pecadores. Nada de opção preferencial pelos pobres. A nova estética do “sagrado” cria uma iconografia de santos engomados, vendedores de Bílbia televisivos e cantores “estrelas de Jesus”. Em lugar da mesa compartilhada, o palco onde se revezam na “adoração” o balé e o strett dance, animando o público com uma aeróbica eclesial – afinal a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé. Entre andar com excluídos e optar pelos pobres fazendo-lhes justiça, ou receber as honras na casa de César fazendo-lhe a corte, a segunda opção é regra mor, é mais viável, em se pensando nos resultados em curto prazo, é rentável, afinal, “os pobres os tereis sempre convosco”, à estes as batatas podres.

Na rotinização do milagre enquanto a adoração a Mamom subverte o sentido último dos dízímos e ofertas cujo desvio banca ternos alinhados, carrões, aviões e mega templos – os ícones da benção precisam demonstrar na prática a vida de sucesso que apregoam – o culto espetáculo é a expressão litúrgica da religião que tenta se sustentar de resultados em gráficos estatísticos semanais que insinuam que a terra prometida é logo ali, está mais perto do que se imagina. Imagine.

O reconstrucionismo que trocando em miúdos é uma elitização da idéia de que a restauração da nação só se dará por meio da teocracia, fez crescer no imaginário dos evangélicos brasileiros a fantasia de que o Brasil só irá pra frente quando os crentes estiverem definitivamente no poder. Uma versão piorada da idéia norte-americana do “destino manifesto”. Enquanto isso às portas do templo a mendicância se avoluma sob atenta supervisão dos “detentores da visão”, a caridade é esmola para formar mais um prosélito, a estratégia é dar com a direita para puxar com a esquerda, é não dar ponto sem nó. O conceito de justiça social é considerado absurdo, mas não por se parecer com assistencialismo sem o verdadeiro objetivo que é salvar a alma do sujeito, nem por ser uma espécie de socialismo embrionário. A questão é que, na esfera econômica pós-moderna, o outro é visto como um concorrente, a competitividade implica em individualismo, portanto a solidariedade é algo contraproducente. Então nada melhor para engodar o pobre do que pão, circo e o céu para depois da morte.

Como modo de produção o capitalismo, que viveu um “reavivamento” nos anos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher sob a chancela do neoliberalismo, tem sua versão evangélica com a teologia da prosperidade. O mito do progresso, secularmente desacreditado logo no início do século XX, ressurgiu no seio das igrejas evangélicas brasileiras sob a autenticação de uma lógica causal de fim de Feira da Barganha. A canonização do capitalismo entre os protestantes reformados – cuja absolutização da tradição pelo viés do culto ao livro os impede de se reformarem – se deve acima de tudo a teologia da predestinação, que, tranqüiliza os que estão na dúvida sobre se vão para o céu ou para o inferno tendo como sinalizador de que vão rir por último em moradas celestiais o sucesso nos negócios – sendo esta a versão mais antiga da teologia da prosperidade. Enquanto os predestinados para a salvação eterna ensaiam aqui a vida regalada que terão no além, o pobre também faz seu ensaio para a danação eterna nesta que é a ante-sala do inferno. A proposta de vida simples, de uma caminhada humilde, de serviço – em que, quem quer ser o maior deve servir o menor –, de não juntar mais do que o necessário para a subsistência – o pão do dia do Pai nosso, ter apenas um capa – foi descaradamente substituída por uma proposta de vida altiva, uma caminhada na trilha do orgulho, o gosto por ser servido pelo menor humilhado e o acúmulo de bens desnecessários por mera inclinação ao consumo.

A última instância de resistência ao capitalismo e de esperança aos menos favorecidos, a igreja, tornou-se, com a mensagem do “vem para Jesus que você vai ganhar”, um lugar que promove um apartheid social, um neodarwinismo tribal-cristão em que só sobrevivem, ou os predestinados antes da fundação do mundo ou os mais espertos no livre comércio das bênçãos disponíveis para poucos. Enquanto os ricos experimentam as bênçãos, os pobres buscam-na. Aqueles envaidecidos eleitos pela graça arbitrária, estes uns azarados com falta de fé. Enquanto àqueles é pregada a paz interior à estes ungem-se carteiras profissionais, matando dois coelhos numa só cajadada com textos adulterados e contextos mutilados.

Os radicais requisitos, humildade, senso de justiça e vida simples – critérios para seguir nas pisadas do Nazareno – são, na mentalidade evangélica contemporânea, um embaraçoso contra-senso à mensagem propalada pelos pregadores midiáticos, pelos gestores de ministérios de sucesso, e pelas estrelas gospel, que com desfaçatez declaram que a honra e a glória são para o Senhor.

O Cristo deixou as claras, “quem vier vai perder”. Porém, os símbolos de sucesso da palavra mercadejada retrucam com a cara lavada, “quem vier vai ganhar”. O embuste é de um varejo inesgotável. De tomar posse da vitória a reivindicar a promessa, de receber chuva de bênçãos a pegar de volta o que é meu, de exigir de Deus o milagre a rejeitar os efeitos de uma existência contingencial apelando para o mágico. Tem oferta para todas as categorias de ganância e para todos os fundos de bolso. Aberta no que promete, seletiva no que distribui.

No deserto Jesus resistiu às três tentações, provisão, livramento e poder. Agora as três tentações, pecados que jaz à porta, foram promovidas à categoria de benditas promessas esperando serem liberadas sobre os crentes que enxergam com os olhos da fé instrumental, as chaves que abrem portas de emprego, que trancam gavetas com processos, que abrem portões de condomínios na praia e dão partida em carros de luxo.

Desde o começo Jesus deixou claro, para que ninguém depois dissesse que não tinha sido avisado: Quem quiser embarcar em meu projeto deve estar ciente de que vai perder tudo. Tudo inclusive a própria vida. Antes de exortar alguém para que se despojasse de bens e segurança para abraçar a causa do Reino, ele mesmo assume-se como um-sem-lugar, que não tem sequer um travesseiro para o descanso noturno – seu parente Jacó, tinha ao menos uma pedra. Jesus defende a implantação do Reino que não é de visível aparência, tampouco é comida nem bebida, “o Reino está dentro de vós” declarou certa vez na roda de amigos.

Seus discípulos não tiveram como um embaraço, para abraçar seu projeto, o fato de terem de viver boa parte da vida ao relento, dependendo da caridade alheia. Simão e André depuseram imediatamente as redes ao serem convidados com um “Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens”. Os filhos de Zebedeu quando convidados prontamente deixaram seu pai e as redes que consertavam e seguiram ao encontro daquele que havia de vir, sem saber sequer para onde iam – isso faz lembrar um tal pai da fé. Levi envolvido com o lucro da cobrança de impostos quando esteve de frente com o Mestre não resistiu ao chamado, deixou a banca e foi após ele. Jesus, o rico que se fez pobre em todas as dimensões da vida, não pregou tampouco santificou a pobreza, ele foi contra o apego às coisas e a ansia pelo excedente, o jovem rico que o diga.

Para Jesus a questão não é simplesmente o ter, mas, ter a ponto de se perder o ser enquanto pessoa, que corrompe o coletivo. O desapego às coisas materiais é condição necessária para alguém ingressar no Reino. Os ricos da antiguidade eram enterrados com seus bens para que sua identidade não se perdesse na outra esfera da vida, os evangélicos de hoje moldaram sua identidade na mercadoria e estão enterrados vivos na cobiça ao lucro. Em seu desapego Jesus esvaziou-se de sua condição primordial tomando a condição de simples mortal (Fp 2.6-7). Viveu de tal forma dependente de Deus que não teve dúvidas quanto a chamá-lo de Pai.

Ele:“Não conquistou os homens pelo poder arrogante que a todos subjuga, mas pelo serviço generoso que a todos fascina. Comprometeu-se com os pobres de seu tempo; tomou-lhes sempre a defesa e não recusou por causa disso as disputas e os conflitos, seja para defender o cego de nascença, os leprosos, a prostituta, a mulher que perfumou sua cabeça, considerada de má vida, os doentes, considerados pelos cânones do tempo pecadores públicos” (Leonardo Boff, TEOLOGIA DO CATIVEIRO E DA LIBERTAÇÃO, p.250).

Na vida do Cristo, é em sua pobreza que somos enriquecidos (2 Co 8.9). O conflito que se estabeleceu em sua vida teve seu agravo contra os partidos religiosos por ter ele priorizado o cuidado com os marginalizados aos sábados, e pior de tudo no templo. Nesse aspecto até fazemos caridade desde que nossa rotina religiosa não se altere e nossa instituição não seja menorizada. O sábado tornou-se senhor do homem. Jesus viveu pelos muitos que ninguém é capaz de viver, por isso morreu pelos quais ninguém é capaz de morrer, o que torna sua morte digna de ser lembrada com o pão e o vinho sobre a mesa. Sua morte foi conseqüência de sua vida; amigo de pecadores, insurgente com as leis dos anciãos, chamou à mesa coxos e aleijados, foi contado entre os transgressores, crucificado entre bandidos, sepultado em um túmulo emprestado. Na ressurreição foi confundido com um jardineiro, apareceu para mulheres, partiu o pão e deu graças a Deus entre dois desconhecidos em Emaús. Ressurreto, não teve audiência com a elite, foi ao encontro dos que o abandonaram na pior hora e deixou o projeto de continuidade do Reino nas mãos desses mesmos párias com quem fez uma grande amizade.

Seguir a Jesus é dar prosseguimento em sua vida, assumir sua conduta, é comprovar o mesmo sentimento que ele teve (Fp 2.5). Jesus assumiu a vida de humilde e morreu a morte de maldito não para que esta tivesse um caráter idealizador, ufanista, mas para que a justiça e a igualdade partissem de dentro do mundo, abraçadas por Deus, para inspirar uma nova mentalidade que inviabilize o aparecimento de ricos e pobres, oprimidos e opressores, mão de obra barata e monopolizadores do lucro e do capital. O Reino não é lugar de privilegiados alienados do mundo, mas de responsáveis esclarecidos pela verdade que liberta.

Ele foi longe demais nas exigências à quem cogitasse andar nas suas pisadas. Nada menos que negar-se a si mesmo e tomar a cruz particular disposta no caminho, assim quem perde a própria vida ganha-a, e quem quer ganhar a própria vida perde-a.


Alex Carrari
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