Os Paradoxos da Minha Fé (parte 1)

Posted: 8 de Janeiro de 2010 in Uncategorized

Ed René Kivitz

Creio porque é absurdo.
Tertuliano (155-220)

Paradoxo é aparente falta de nexo ou de lógica, algo que contém uma contradição. Isso faz lembrar a história do Rebe Benjamin, chamado para arbitrar um litígio. Ouviu o primeiro reclamante e disse: “Você tem razão”. Ouviu também o segundo reclamante e deu o mesmo parecer: “Você tem razão”. Sua esposa sara, tendo ouvido a conversa, depois que os reclamantes saíram furiosos, comentou com o Rebe: “Perdão, meu senhor, mas não creio que dois homens que discordam entre si podem estar igualmente certos”, ao que o Rebe Benjamin retrucou: “Você tem razão”.

Somente quem transita bem no mundo dos paradoxos compreende como dois homens que discordam entre si podem estar igualmente certos. A maioria das pessoas, entretanto, raciocina em termos de lógicas simples, do tipo “se eu estou falando a verdade, então ele está mentindo” ou “se você está certo, então estou enganado”. Leonardo Boff adverte, entretanto, que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”. E justamente por isso, naquela história, quem tem mesmo razão é o Rebe.

Carlos Mesters disse que “a distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita. Se vou à esquerda, enxergo a praça; se vou à direita, enxergo a torre. Sou eu que determino o que aparece lá fora na rua para servir de panorama aos meus olhos. Mas nem por isso é falso ou errado aquilo que vejo e descrevo, pois não sou eu que crio as coisas que aparecem lá fora. Já existiam antes de mim. Não dependem de mim. É útil e até necessário que cada um defina bem clara e honestamente aquilo que vê pela sua janela. Isso redundará em benefício da análise que se faz da realidade da vida. O que me consola é que todos somos assim. Bem limitados e condicionados pelos próprios olhos, dependentes uns dos outros. É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos a enxergar melhor as coisas que vemos, e a romper as barreiras que nos separam sem razão. Pois ninguém é dono da verdade. Intérprete só”.

Com Mesters aprendemos que nenhuma teologia pode reivindicar ser a detentora da verdade. Até porque o próprio conceito de teologia é paradoxal. Tomando como correta a definição de Frei Betto: “teologia é o esforço racional de apropriação das verdades de fé”, ficamos diante do paradoxo: sendo verdade de fé extrapola a apropriação racional; sendo apropriação racional prescinde de fé. Por esta razão, o Cristianismo não depende da ortodoxia, mas da revelação. A ortodoxia é uma teologia elevada à categoria de verdade absoluta. A revelação é o encontro com uma pessoa. Uma pessoa que não cabe nem na teologia nem na ortodoxia. Uma pessoa é sempre um paradoxo (perdoe o sempre).

Nos últimos tempos estou ocupado em teologizar a respeito da relação entre Deus e os homens na construção da história, a relação entre soberania de Deus e liberdade humana, e a relação de Deus com o tempo e a eternidade. Este é o meu esforço pessoal de tentar conjugar a realidade vivencial, o registro da revelação e uma lógica mínima que faça com que as duas coisas convivam coerentemente. Eis aí três campos que consigo compreender apenas em termos de aparentes paradoxos.

1- Deus escreve a história através de mãos humanas

Esta afirmação pode ser uma paráfrase do Salmo 77.20: Deus guiou seu povo pelas mãos de Moisés e de Arão. O que nos faz lembrar a expressão impressa nos adesivos dos carros dos cristãos piedosos: “Guiado por Deus, dirigido por mim”. O paradoxo está posto: se de Deus escreve a história então as mãos humanas não são livres. Mas se as mãos humanas são livres, não é Deus quem escreve a história. Alguém poderia objetar que isso não é um paradoxo, pois não há necessária contradição aparente: as mãos humanas podem ser manipuladas pelas mãos de Deus, como o pai que segura a mão do filho para ajudá-lo a escrever. Mas não é esse o espírito da expressão. A questão por trás quer saber se a história é escrita a quatro mãos ou duas, as de Deus. Ou mesmo, se os rabiscos humanos no papel exigem de Deus providências para que a obra final não seja estragada. Em outras palavras: a atuação humana na história obriga Deus a necessariamente refazer seus caminhos? Abre parêntesis. Incluo a palavra “necessariamente” por acreditar na real possibilidade de que as mãos humanas façam o que Deus faria, e nesse caso, Deus não precisa refazer seus caminhos. Fecha parêntesis.

A narrativa bíblica registra pelo menos três exemplos da liberdade humana impondo limites à atuação de Deus, ou, exemplos de como Deus precisa fazer curvas para voltar ao rumo dos seus propósitos, ou ainda, exemplos de como Deus escreve a história através de mãos humanas: a posse da terra prometida, a escolha de um rei para Israel, e a construção do templo em Jerusalém.

O trajeto entre o Egito e a terra prometida duraria aproximadamente três meses, mas o povo de Israel demorou 40 anos para entrar em Canaã. A razão é simples: a primeira geração que saiu do Egito se acovardou diante dos ocupantes da terra e se recusou a entrar. Dos doze espias enviados para sondar a terra, somente Josué e Calebe demonstraram disposição de fé para tomar posse da promessa feita por Deus. O resultado foi que Deus decidiu colocar o povo em marcha pelo deserto, esperar a primeira geração morrer, e dar uma nova oportunidade para Israel. Caso a segunda geração se acovardasse, provavelmente a peregrinação pelo deserto se prolongaria. Mas a segunda geração não se acovardou. Deus fez um conclave para nova celebração da Lei (por esta razão Deuteronômio 5 repete Êxodo 20) e delegou a Josué a função outrora exercida por Moisés. Em outras palavras, Deus demorou 40 anos para avançar o que poderia ter avançado em três meses.

No tempo em que Samuel era sacerdote e profeta em Israel, o povo pediu um rei, à exemplo de todas as outras nações. Samuel não gostou da idéia e foi chorar diante de Deus. Deus consolou Samuel dizendo que “eles não te rejeitam como sacerdote e profeta, mas a mim como Deus”. Deus esclarece ao povo as implicações de ter um rei e adverte que a idéia não é boa, mas, mesmo assim, aquiesce ao pedido e concede um rei a Israel: Saul. A sucessão de reinados divide o povo, separando dez tribos de um lado (Reino do Norte = Israel, cuja capital era Samaria) e duas tribos (Judá e Benjamim) de outro (Reino do Sul = Judá, cuja capital era Jerusalém). Foram mais de 600 anos de sofrimento para Israel (120 anos de reino unido e 400 anos de reinos do norte e sul), dando a Deus o trabalho de disciplinar o povo (fim do reino do Norte, conquistado pela Assíria no século VII a.C., e 70 anos de cativeiro do reino do Sul sob a domínio Babilônico no século V a.C.) e fazer nascer o Messias, que entraria em Jerusalém aclamado como o filho de Davi. Em outras palavras, Deus faz uma tremenda curva para suscitar a semente de Abraão, preservando a descendência de Judá, um dos filhos de Isaque.

O mesmo fenômeno ocorre em relação ao templo de Jerusalém. Num de seus momentos de ócio na varanda do palácio (num deles Davi viu Bateseba e você conhece a história), o rei Davi teve a brilhante idéia de construir um templo para o Deus de Israel, afinal os deuses das outras nações tinham onde morar e o Deus de Israel era um sem-teto, isto é, um com-barraca – o Tabernáculo. Natã adverte Davi afirmando que Deus jamais solicitará um templo, mas mesma assim Davi decide levar adiante seu projeto, acreditando estar fazendo algo para glorificar a Deus. Deus então decide acolher a oferta de Davi, assume o compromisso de ouvir as orações naquele templo, e a partir de então o templo de Jerusalém é incluído no processo histórico da redenção – a mesma coisa que ocorre com o rei e os estados-nações. Quando Jesus de Nazaré entra em cena, Deus faz um esforço tremendo para desmontar a figura do templo e incluir novamente a figura do Tabernáculo: em Jesus, Deus tabernaculou entre nós, pois o Filho do Homem, diferentemente dos passarinhos, não tinha endereço fixo.

A afirmação de que Deus não está brincando de liberdade é tão real que através do profeta Deus mesmo expressa uma frustração. Falando a respeito de seu cuidado para com o povo de Israel, que compara a uma vinha, afirma ter feito de tudo para colher uvas boas, mas as uvas foram amargas (Isaías 5), o que o faz exclamar em puro espanto que não conseguia entender como as pessoas poderiam preferir a água enlameada da chuva às águas cristalinas do manancial (Jeremias 2.12,13).

Também por esta razão creio que Deus não tem planos, mas propósitos. A realização cabal dos propósitos de Deus está garantida pelo fato de Deus ser soberano, enquanto as idas e vindas dos planos de Deus são necessárias em razão da liberdade humana.

Os três exemplos citados ilustram como Deus, para garantir a concretização de seus propósitos, redesenha seus planos em virtude das ações livres do homem. Mas você perguntaria onde está paradoxo, pois até agora não há nenhuma aparente contradição no fato de Deus permitir que a história se desenrole a partir das escolhas livres do homem. Por enquanto, o homem age e Deus reage. A questão é que essa não é toda a verdade. A verdade completa inclui a ação soberana de Deus em paralelo à ação livre do homem. Como pode ser isso, você perguntaria. A resposta pode ser desenhada partir de três outros exemplos: a saga de José do Egito, a rebeldia de Faraó, e a morte de Jesus Cristo.

2- Deus age soberanamente levando em conta a liberdade humana

Alguém diria que o paradoxo da afirmação consiste no fato de que se Deus age soberanamente, a ação humana não é livre, e se a ação humana é livre, Deus não é soberano ou não pode agir soberanamente.

Esta aparente contradição poderia ser desfeita por uma simples redefinição de soberania. Entendo soberania como a crença de que nada pode impedir Deus de executar sua vontade a não ser Ele mesmo, Deus.

A aparente contradição poderia ser desmontada também pela afirmação de que a soberania de Deus não anula a liberdade humana. Por exemplo, lá em caso sou soberano em relação aos meus filhos, mas isso não impede meus filhos de agirem livremente. Isso se aplica à relação entre Deus e o homem quando Deus soberanamente escolhe como usar sua soberania. Isto é, considerando que Deus soberanamente escolheu outorgar liberdade ao humano, esta liberdade humana em nada anula a soberania de Deus: o homem é livre porque Deus quer, e não porque Deus foi destituído de sua soberania.

Particularmente, acredito ter afirmado o óbvio. Mas os nossos óbvios não são necessariamente óbvios para os outros. Além disso, os nossos óbvios podem parecer simplistas em relação aos óbvios dos outros. Ou mais do que isso, os nossos óbvios podem sugerir covardia e fuga do debate aos olhos dos outros. Por esta razão, convém entender melhor como a soberania de Deus convive com a liberdade humana, e vice-versa.

Deus não está brincando de liberdade. A decisão divina em outorgar liberdade humana implica que Deus escolheu livre e soberanamente limitar sua atuação, visando dar espaço para a existência do homem e possibilitar sua convivência com ele.

José era um dos doze filhos de Jacó (cujo nome fora mudado para Israel), que dá origem às Doze Tribos de Israel. Sonhador, acreditava que Deus o havia escolhido para governar a família: os pais e os irmãos ainda se prostrariam diante dele reconhecendo sua grandeza. Evidentemente, os irmãos mais velhos detestaram a profecia e decidiram se livrar de José. Após uma razoável tramóia, José foi vendido pelos seus irmãos aos mercadores de escravos e foi parar no Egito. A Bíblia diz que “a mão de Deus era com José”, de modo que ele prosperou e se tornou uma espécie de primeiro ministro do Egito, com autoridade inferior apenas à do Faraó. Sua ascensão se deveu às interpretações de sonhos, especialmente a respeito das vacas magras e gordas, representavam sete anos de fartura e sete de fome. Orientou o faraó a armazenar no tempo da fartura para que se tivesse provisão no tempo da fome. Deu certo. Foi assim, fugindo da fome, que seus irmãos chegaram ao Egito e descobriram que o menino mimado vendido aos mercadores de escravos se tornara nada mais nada menos que o segundo homem mais poderoso do mundo de então. Diante dos irmãos perplexos, que faziam seu mea culpa entre lágrimas e desespero, José sai com a seguinte declaração: “não foram vocês quem me enviaram para cá, mas Deus”, pois “vocês intentaram fazer o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, não para minha própria satisfação, mas como instrumento para salvar a vida de muitos”.

Passados muitos anos, sobe ao trono um Faraó que jamais ouvira a história de José, e desconhecia que o povo israelita era sua descendência (israelita é o descendente do pai de José, Jacó, cujo nome foi trocado para Israel). Temendo pela segurança de seu reinado, em razão do aumento populacional do povo, o Faraó decide impor sobre os israelitas uma escravidão desumana (perdoe o pleonasmo). O povo escravizado clama ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Israel), que vocaciona Moisés como libertador. Moisés é enviado por Deus para negociar com o Faraó a libertação dos israelitas, mas o Faraó age obstinadamente impedindo o êxodo do povo. Deus age com braço forte e retira os israelitas do Egito após submeter os egípcios às duras penas das dez pragas. Os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, o povo que carregaria pela história o ventre prenhe do Messias prometido, nasce sob o signo da libertação. Mais adiante ficamos sabendo que tudo isso havia sido articulado por Deus: os sonhos de José, a venda de José como escravo no Egito, o sonho do Faraó interpretado por José, os anos de fartura e fome, a imigração da família de José para o Egito, os anos de escravidão, e, pasmem os senhores, o coração endurecido de Faraó, que pensava agir de livre vontade, mas obedecia um scripit elaborado por Deus.

O Messias nasce, cresce, anda por toda parte fazendo o bem, é rejeitado e traído pelo seu povo – a descendência de Israel, é preso sob acusação de sedição, morre na cruz do Calvário e ressuscita ao terceiro dia. No dia da festa do Pentecoste, celebrada anualmente pelos israelitas no 50º dia após a festa da Páscoa, Pedro, um dos chamados 12 apóstolos discípulos de Jesus, explica o advento Cristo e o derramar do Espírito Santo com as seguintes palavras: “vocês assassinaram Jesus de Nazaré, mas saibam que ele foi morto porque Deus assim planejou, e por esta razão o trouxe de volta da morte e o fez Senhor e Cristo (Messias)”. Parece que Pedro tinha boa memória, pois Jesus já havia dito que sua morte seria um assassinato, mas sua vida não lhe seria arrancada das mãos, pois será doada livremente.

Aí está um grande paradoxo: Deus age soberanamente levando em conta a liberdade humana. A saga de José é ao mesmo tempo resultado da ação livre de seus irmãos e da ação soberana de Deus; a rebeldia de Faraó é ao mesmo tempo uma ação livre do opressor de Israel como ação soberana do Deus de Israel; a morte de Jesus de Nazaré é ao mesmo tempo assassinato e auto-doação, ação livre dos homens e cumprimento do propósito eterno de Deus.

3- Deus conhece os fatos que ainda não aconteceram

O paradoxo consiste no seguinte: sendo fatos, fazem parte do passado, mas se ainda não aconteceram, fazem parte do futuro. Esse é o grande tema em debate no Teísmo Aberto.
O Teísmo Aberto afirma que Deus decidiu criar um universo no qual o futuro não pode ser totalmente conhecido, até mesmo por Ele, Deus. Para muitos adeptos do teísmo aberto o futuro não é uma realidade, isto é, ainda não existe, e Deus conhece apenas o que existe para ser conhecido. Este ponto de vista é chamado de “onisciência dinâmica”, onde o conhecimento de Deus a respeito do futuro é parcial, pois o futuro está parcialmente definido (fechado) e parcialmente indefinido (aberto). O conhecimento de Deus a respeito do futuro contém o que está determinado bem como o que é apenas possibilidade – isto é, é indeterminado. O futuro determinado inclui duas realidades: o que Deus decidiu que faria, e os eventos físicos determinados, como, por exemplo, o choque de um asteróide com a lua (ver John Sanders. Summary of openness theology. In: http://www.opentheism.info/, acessado em 21 de maio de 2007; ver também Gregory Boyd. God of the possible. Grand Rapids: 2000. p.32).

O casuísmo bíblico mostra que Deus conhece o futuro. Veja os seguintes exemplos:

. Então disse a Abrão: Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a nação, à qual ela tem de servir, e depois sairá com grande riqueza. (Gênesis 15.13,14)

. E ele clamou contra o altar por ordem do SENHOR, e disse: Altar, altar! Assim diz o SENHOR: Eis que um filho nascerá à casa de Davi, cujo nome será Josias, o qual sacrificará sobre ti os sacerdotes dos altos que sobre ti queimam incenso, e ossos de homens se queimarão sobre ti. (1Reis 13.2)

. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. (Isaías 46.9,10)

. As primeiras coisas desde a antiguidade as anunciei; da minha boca saíram, e eu as fiz ouvir; apressuradamente as fiz, e aconteceram. Porque eu sabia que eras duro, e a tua cerviz um nervo de ferro, e a tua testa de bronze. Por isso te anunciei desde então, e te fiz ouvir antes que acontecesse, para que não dissesses: “O meu ídolo fez estas coisas, e a minha imagem de escultura, e a minha imagem de fundição as mandou”. (Isaías 48.3-5)

. E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca. (Isaías 53.9)

. Porque assim diz o SENHOR: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar. (Jeremias 29.10)

Alguém poderia afirmar que Deus conhece do futuro apenas aquilo que determinou: Deus conhece o futuro como decreto. As profecias bíblicas seriam, portanto, anúncios antecipados daquilo que Deus decidiu fazer independentemente de quaisquer fatores, inclusive a livre vontade humana. Mas podemos fazer duas objeções a isto. A primeira, de ordem moral, a segunda, lógica.

Diz Ariovaldo Ramos que o futuro como decreto “parece fazer sentido em relação a profecias como as que se cumpriram na vida de Jesus Cristo. Mas e quanto àquelas de aviso, como a de que Pedro negaria a Cristo três vezes antes do cantar do galo ou o anúncio da traição de Judas Iscariotes? Se elas se enquadram nos decretos, Deus é culpado, pois, ao decretar que Pedro ou Judas faria o que deles foi dito, deixou-os sem escolha a não ser a de pecar segundo a palavra divina; logo, não poderiam ser passíveis de juízo, pois estavam amarrados a um desígnio inexorável. Há situações que foram pré-determinadas, até como juízo, mas foram devidamente anunciadas como tal – como no caso do endurecimento do coração de Faraó na ocasião do êxodo judeu. Cristo, porém, disse que os escândalos eram inevitáveis, mas não os escandalizadores (Mateus 18.7-9) (…) se todo aviso que se encontra na Bíblia é o deflagrar de um desígnio, então a história está mais para um grande teatro do que para o desenrolar de uma batalha pela salvação da humanidade”. Esta é a objeção de ordem moral. (Ariovaldo Ramos. Teologia e lógica. In: http://www.teologiabrasileira.com.br/Materia.asp?MateriaID=87 , acessado em 22 de maio de 2007)

A segunda objeção é de ordem lógica: “se Deus nada sabe [não conhece o futuro, digo eu], como pode decretar, uma vez que os fatos não caem de pára-quedas sobre a história, senão como corolário de um sem número de movimentos? Para decretar algo na história é preciso saber onde a história estará em determinado momento, uma vez que decretar é impor uma das variantes possíveis”, diz Ariovaldo Ramos. (Idem)

O futuro como decreto, ou o futuro como resultado da livre escolha humana – cenário onde os decretos se cumprirão, são conhecidos de antemão por Deus. Caso tudo seja decreto, o ser humano não é passível de julgamento moral. Caso tudo seja imprevisível, então a história está à deriva. Ambas as possibilidades não se encaixam no está revelado a respeito de Deus na Bíblia Sagrado.

O Teísmo Aberto tenta resolver esta questão argumentando que o futuro é parcialmente fechado (decretado) e parcialmente aberto (sujeito às ações livres). Isso é óbvio e acredito verdadeiro. Mas isso não dá margem para que se deduza necessariamente que Deus não conhece aquilo que no futuro está aberto. A afirmação de que Deus conhece apenas o que existe para ser conhecido, e o futuro aberto ainda não existe e, portanto, não pode ser conhecido nem mesmo por Deus, fica devendo explicações a respeito de algumas profecias. Como explicar textos como:

. E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os seus anjos, e ajuntará os seus escolhidos, desde os quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu (…) Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai. (Marcos 13.27-32)

. E, comendo eles, disse: Em verdade vos digo que um de vós me há de trair. E eles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, SENHOR? E ele, respondendo, disse: O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair. Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido. E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste. (Mateus 26.21-27)

. Replicou-lhe Jesus (a Pedro): Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás. (Marcos 14.30)

. Naqueles dias desceram profetas de Jerusalém para Antioquia; e levantando-se um deles, de nome Ágabo, dava a entender pelo Espírito, que haveria uma grande fome por todo o mundo, a qual ocorreu no tempo de Cláudio. (Atos 11.28)

. E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judéia um profeta, por nome Ágabo. E, vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo, e ligando-se os seus próprios pés e mãos, disse: Isto diz o Espírito Santo: Assim ligarão os judeus em Jerusalém o homem de quem é esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios. (Atos 21.10,11)

Voltamos ao dilema anterior, caso Pedro e Judas tenham agido obedecendo um decreto de Deus, então são inocentes. Caso tenham feito o que fizeram por livre escolha, então o futuro era previamente conhecido. Concordo plenamente quando o Teísmo Aberto diz que o futuro está parcialmente fechado (decretado) e parcialmente aberto (sujeito às escolhas humanas livres). Mas não vejo como necessária a crença em que Deus não conheça o futuro aberto, até porque o casuísmo bíblico e a lógica teológica evidenciam o contrário.

Mas como pode Deus conhecer o que ainda não aconteceu como se já tivesse acontecido? Na verdade, como pode Deus chamar à existência as coisas que não são como se já fossem?”. Eis mais uma questão com a qual consigo conviver apenas em termos de paradoxo.

Considerações (quase) finais

Os paradoxos de minha fé afirmam que:
. Deus escreve a história através das mãos humanas
. Deus age soberanamente levando em conta a liberdade humana
. Deus conhece os fatos que ainda não aconteceram

Qual a relevância destas afirmações para a vida e o relacionamento com Deus e a caminhada no discipulado de Cristo? Ou mais precisamente, como podemos e ou devemos nos posicionar diante destas verdades, de modo a assumirmos as responsabilidades inerentes ao sagrado direito de viver? As respostas serão abordadas em Os paradoxos da minha fé – Parte 2.

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Comentários
  1. Inquietantemente esse texto trouxe consciencia real, as minhas profundas indagações e se apresentou no exato momento dos meus maiores conflitos cognitivos.Tudo que posso conceber é a perfeição para o momento do entendimento.

  2. Cheguei aqui através do twitter e é a primeira vez que venho ao blog.Me alegra e motiva encontrar alguém que realmente reflita e medita nas contradições, paradoxos e afins, levando em consideração o Espírito que é UM SÓ e sabendo conciliar o fato de vivermos num mundo onde a ciência se faz necessária (digo isso pelo fato de ser um estudante de medicina).Parabéns por esse texto e voltarei sempre pois é um blog de fato inteligente e edificante.Abs,Mariana

  3. Anonymous diz:

    @Luiz_CegracExcelênte…Deus vai muito mais além do olhar humano…Um texto que Dispensa comentários…Deus Abençoe à todos

  4. Adalberto diz:

    Vejo a coragem do Pr. Ed Renê em expor suas convicções, e de forma bem plausível. Mas não podemos esquecer que o Pr. Ricardo Gondim foi o precursor desses questionamentos, há alguns anos, fato que o colocou na posição de “herege”por muitos que se apregoam como “defensores de Deus” e dominam essa mídia ingênua (?) e/ou interesseira. E o Pr.Gondim teve a coragem de abordar esses polêmicos assuntos há cerca de uns cinco anos…E, nesse tempo, Ed Renê era íntimo do Gondim…

  5. Déa São Paulo diz:

    Concordo Luiz, o texto realmente dispensa comentários! Parabéns!!

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