Deus imerso no humano

Posted: 11 de Dezembro de 2009 in Uncategorized

Ricardo Gondim

Quem é Deus? Por que existe algo ao invés de nada? Estupefatos, contemplamos o céu estrelado, a fúria das marés e inquirimos: Por que a beleza? Diante da mente humana, buscamos entender como nasceu amor e ódio, criatividade e maldade. Onde está Deus? Podemos entender a transcendência absoluta?

A cultura semítica, de onde Jesus formulou os seus conceitos, não especulava, mas se contentava em relacionar-se com Deus como Pai. Judeu nômade, profeta ou sacerdote, não esboçava cartilha para entender a Divindade. Javé não era objeto de estudo, não participava de uma elaboração lógica, dedutiva, que procurava captar mentalmente o ser divino. Na tradição judaica, Deus era crido na dimensão existencial e poética. Eles se contentavam em narrar os atos de Deus na história, na imanência. Não havia preocupação de encaixá-lo em uma racionalidade analógica e dedutiva.

Quando o cristianismo primitivo precisou dialogar com o mundo greco-romano, os Pais da Igreja, geração que sucedeu os apóstolos, mostraram-se cuidadosos em demonstrar que a fé cristã era mais que uma seita judaica. Eles lutavam para que o cristianismo sobrevivesse em um mundo que debatia ideias. A fé, confrontada com o pensamento platônico, não deixaria nada a desejar.

Vários pressupostos filosóficos sobre a Divindade foram então absorvidos pelo cristianismo. Assim como cristianismo influenciou de forma decisiva o Ocidente, o Ocidente também o transformou. A teologia que se consolidou passou a repetir o conceito aristotélico de que a divindade é um “Motor imóvel”. Já que perfeição significava imobilidade na filosofia, Deus era concebido como tão absolutamente perfeito, que nunca poderia experimentar qualquer mudança. Caso mudasse, deixava de ser Deus. Qualquer alteração, para pior ou para melhor, significava não ter, anteriormente, a perfeição absoluta. E um Deus que não fosse perfeito não era Deus.

Quando o cristianismo se espalhou, inúmeros deuses povoavam o mundo antigo – o Panteão estava lotado deles. Ninguém franzia a testa se escutasse sobre a Encarnação. Não espantava acreditar que Deus encarnou e foi visto caminhando pelas estradas poeirentas da Palestina. A dificuldade, a loucura, era afirmar que um contador de histórias, um carpinteiro frágil, manso e amigo de gente imperfeita, era Deus e, pior, havia morrido por mãos humanas.

Isso não era só um paradoxo, mas uma insanidade: Como? Deus morrer? A morte de Jesus, não só demolia o edifício conceitual da filosofia, como se colocava como a contradição mais escandalosa. Essa mensagem correu o mundo. O Transcendente absoluto, o Deus dos deuses, podia ser melhor compreendido olhando para Jesus de Nazaré. As conjecturas gregas não colavam nele. O Filho do Homem não tangenciava Movedor imóvel de Aristóteles.

É preciso retomar a ênfase do cristianismo primitivo. Jesus não se parece com Deus como “Ato Puro”. Em Cristo, Deus não é apático e não está preso pela camisa de força da metafísica. A Divindade se fez gente e mostrou-se comovida de “viscerais afetos” por uma viúva a caminho de enterrar o filho. Chorou diante da sepultura de um amigo (Ah, como a dor humana dói em Deus! – “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado” – Isaías 63.9). Irritou-se com a opressão religiosa. Entendeu, e acolheu, as lágrimas de uma prostituta.

Realmente Jesus não se parecia com o que fora dito sobre Deus. A pregação cristã nasceu em cultura distinta da helênica. O Reino que Jesus anunciou não encontrava paralelo na cultura, nos mitos, nas tragédias. O Deus de Jesus estava além do alcance de poderosos e sábios; mas podia ser intuído por puros de coração, crianças e marginalizados. Para detectar réstias do mundo espiritual, era preciso ouvir o inaudível, ver o imperceptível, tocar no intangível. Grãos de mostarda, ovelhas indefesas, gente inoperante, escravos inúteis, pecadores indignos, filhos pródigos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, exorcistas informais, lírios e pardais, compunham o mosaico que revela Deus.

Jesus não se fantasiou, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses – A plenitude da Divindade habitou em Jesus de Nazaré. Deus mostrou-se imerso no humano. Não era preciso procurá-lo na trans-história, no sobrenatural, mas na vida. “O Reino de Deus chegou!” Jesus foi a revelação mais próxima que jamais teremos de Deus, que escolheu vulnerabilizar-se em seu amor.

Outras divindades podem ser descartadas como ídolos.

Soli Deo Gloria

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Comentários
  1. Alice diz:

    Momentos de encantamento:acabo de me tornar seguidora assídua de suas palavras e coloco-te entre meus favoritos !!Cara, isso é muito bom !!abraçossssss

  2. Tenho passado por um momento, onde tenho tid muita sede de conhecimento da palavra, mas na minha igreja não tenho tido… mas dou graças a Deus pq posso encontrar palavras tão profundas e esclarcedoras, e que trazem edificação à minha vida.Graças pela vido o Ricardo Gondim (que ficaria muito feliz se tivesse algum parentesco com ele, pq também sou um Gondim)Abraço a todos!!!

  3. Foi uma leitura revigorante, como só a graça de Deus sabe ser! Um Deus único e incomparável!Um grande abraço e muito obrigada por essa bênção!

  4. Um maravilhoso contraponto aos excessos de informações que existem em nossa igreja. Quer saber quem é Deus? Olhe para Jesus.

  5. A pessoa de Deus quando exposta de forma clara, mesmo para aqueles que já o conhecem, e motivo de glorificação a ELE. Deus seja louvado.Pr. Raimundo Gomes da Cruz

  6. Humberto Machado diz:

    Quero saber de tantas palavras bonitas, lindas e escolhidas a dedo você ora para a sua salvação, ou aonde você imagina ou pensa que vai apos a sua morte? As coisas de Deus não tem lógica, quem escreveu este texto parece minha mulher contestando o que é incontestável, e como eu já disse e digo sempre, Deus sem você é Deus e você sem Deus é o que? Deus já levou para com ele prostitutas e bandidos matadores, existe uma lógica nisso, pense bem existe lógica você morrer por todas as pessoas no mundo que existem hoje, que já existiram e que ainda vão existir, pessoas que você nem conhece? Existe uma lógica você sacrificar seu único filho para salvar a humanidade e mesmo assim ela revoltar contra você e seu filho, existe lógica um corpo de carne e osso ressuscitar, as coisas de Deus não existe logica muito menos uma razão para ser explicada.
    Você pode querer sei la rebater o que a bíblia diz pode odiar a Deus pode matar roubar fazer o que quiser, se na hora de sua morte você se arrepender ele mesmo assim o perdoa, agora eu lhe pergunto você perdoaria uma pessoa assim? Os detalhes reais do que aconteceu ou deixou de acontecer, quem planejou a religia catolica quem planejou a religiao cristã quem brigou com quem isso não interessa, o que interessa e servir a Deus. Digamos que você esteja carto na sua teoria e quando você morrer e/ ou o mundo acabar o que será de você e de sua teoria? O que eu quero dizer é o que realmente é importante pra você nesta vida efemera?

    • repito o final do texto, amigo… não sei se você leu até o final, porque o texto tem inicio, meio e fim e parece que você só se atentou ao inicio dele, já que estas perguntas suas fazem parte do inicio, mas a conclusão chega abaixo… abraços

      “Jesus não se fantasiou, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses – A plenitude da Divindade habitou em Jesus de Nazaré. Deus mostrou-se imerso no humano. Não era preciso procurá-lo na trans-história, no sobrenatural, mas na vida. “O Reino de Deus chegou!” Jesus foi a revelação mais próxima que jamais teremos de Deus, que escolheu vulnerabilizar-se em seu amor.”

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