Perspectivas

Posted: 12 de Novembro de 2009 in Uncategorized
NÃO VI E NÃO GOSTEI: Sou feito cachorro: não abocanho sem antes cheirar. Cheirei e não gostei do cheiro. Cheiro de sangue. O filme do Mel Gibson sobre a morte de Cristo. Não fui assistir. Meu Deus não tem cheiro de sangue. Tem cheiro de criança suada, quando volta dos brinquedos, como o descreveu Alberto Caeiro.

A psicanálise ensina que tudo o que a gente faz tem a cara da alma da gente. Conclui que o Mel Gibson é um poço de pecados para causar tanto sofrimento e N.S. Jesus Cristo. Cristo teve de sofrer aquilo tudo por causa dele. O filme, por tudo o que li, é uma expressão moderna de uma espiritualidade antiga que encontra os seus prazeres sado-masoquistas na contemplação de feridas, sangue e corações dilacerados por punhais.

Os santos são sempre uns sofredores. Não conheço nenhum santo sorridente, alegre com a vida. Estão todos sofrendo perfurados por flechas, punhas, afligidos por feridas, etc. Um Deus que precisa que os homens sofram tanto para se sentir apaziguado – eu não o chamaria de Deus. Eu o chamaria do oposto… Quem gosta de ver os homens sofrendo é o demônio.

O filme do Gibson tem por objetivo provocar sentimentos de dó e culpa naqueles que o vêem. Para que? Para poder dominá-los. Os que se sentem culpados são sempre fracos. Andam sempre de cabeça baixa. Estão sempre prontos a fazer a vontade daqueles frente aos quais se sentem culpados. Os judeus têm uma fina percepção do significado do sentimento de culpa. Inventaram essa piadinha. Uma mãe italiana, quando está furiosa com o filho, faz uma gritaria, joga pratos, pega o rolo de macarrão, o filho foge correndo pela porta enquanto ela diz: “Desgraçado, eu te mato…” A mãe judia, quando está furiosa com o filho, chega-se mansamente a ele, uma lágrima escorrendo pelo rosto, e diz bem baixinho: “Meu filho, eu me mato…”

Há um hino protestante que diz o que eu disse de maneira absolutamente clara: “ Morri, morri na cruz, por ti. Que fazes tu por mim?” A cruz, vista pelos olhos do Mel Gibson, não liberta. Escraviza. Por isso não gostei do filme.

Rubem Alves

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s