Nada do que é Humano me é Estranho

Posted: 24 de Julho de 2009 in Uncategorized

Mas foi um pouco. E até agora eu não consegui ignorar. Deixar de pensar. Na sala dos professores, um professor me disse: “Eu vou me matar”. Uma voz baixa, contida. Totalmente racional. Ele não gritou, não quis chamar atenção, fazer escândalo. Era apenas eu e ele na sala dos professores. E me disse, sereno, firme: “Cara, eu vou me matar”. E eu não soube o que dizer. Apenas perguntei: “Por quê?”

Foi a melhor pergunta, a melhor frase para a afirmação dele? Eu não sei. Sinceramente, não sou a melhor pessoa para ele dizer isso. Se é que ele esperava algo do tipo: “Cara, não faz isso. A vida é boa.” Não, não acho a vida boa. A vida é foda. Fudida, e cheia de sofrimento. Somos todos uns fudidos. Penso isso. Vejo isso. Talvez eu tenha uma visão deturpada das coisas. Por isso eu só consegui perguntar: “Por quê?”

“Tô cansado”, ele falou. “Cansado de ser pobre, cansado de me ferrar. É a sina da minha família as pessoas se matarem, ja foram três”. Uma mão sobre a mesa, a outra despencando no braço. A cabeça balançando levemente, pra cima e pra baixo. Os olhos baixos, derrotados. E eu não soube o que dizer. Talvez faltou apenas a minha sinceridade em falar: “Amigo, eu entendo”. De verdade, eu entendo.

Eu estava de saída. Ele quase de entrada. Ia para a 5ªB. Ainda bem. Fosse a 5ªD, eu temeria. De hoje não passaria. Nesta classe, ninguém consegue trabalhar. Ninguém. A não ser que seja, quase, na base da porrada. Mas aí não é mais educação. Nem aula. É barbárie total. Máquina de moer gente. E tenha certeza: você sai arrebentado.

É demais, galera. A escola está matando muita gente. E não é uma morte abstrata, dizer que sem a Educação os jovens vão para o crime, para as drogas ou qualquer estatística. Aqui não se trata de números, mas de pessoas. Pessoas que eu olho nos olhos, aperto as mãos, digo: “adeus”.

Foi o que ele me disse. “Se souber de algo, não se surpreenda.” E, de verdade, talvez eu não fique surpreso. Talvez apenas mais revoltado, ou depressivo. Por que estamos nesta situação? Como chegamos ao fundo deste poço? Eu sei. Um pouco eu sei. E por isso que eu prossigo. Por isso que eu arranco forças de onde não tenho mais. Para revidar, para me vingar. Também quero socar, bater, chega só de apanhar. “Não se surpreenda”, ele disse. Tudo bem, camarada. Mas se decidir ficar, estamos juntos na parada. Se decidir ir, tudo bem. Já disse alguém, e eu concordo: “Nada do que é humano me é estranho”. Eu vou entender…

Fonte: Blog Efeito Colateral – Rodrigo Ciríaco
Dica: Andrea Rissardo

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